Desamarrações

Diante de sofrida viúva, a médium transmitia informações do “mentor”:
– Sua vida está “amarrada”. Há gente que não gosta de você e a cerca de vibrações negativas. Isso agrava os problemas com sua filha, que se ressente de um sentimento de rejeição de sua parte, quando nasceu. Inconscientemente, ela guarda certa revolta e a agride com suas atitudes, pretendendo castigá-la.
– Estranho… Eu queria ser mãe! Vibrei quando fiquei grávida!
– E tem mais: seu marido não se conforma em viver longe da família, principalmente da filha, por quem nutre carinho especial. Está agindo com o propósito de levá-la. Daí os problemas de saúde que vem enfrentando.
– Meu Deus! É assustador!
– Tenha calma. Com nossa ajuda, esse nó será desfeito!
Terminada a reunião, tensa e amedrontada, a viúva perguntou à médium que providência deveria tomar.
– Deixe tudo por conta de meu mentor. Ele é poderoso. Teremos apenas que tomar algumas providências, comprando os apetrechos necessários.
– Estou pronta. Que devo fazer?
– Vai custar-lhe dois mil reais…

***
Ouvi essa assombrosa história da própria consulente.
Há dias não conseguia dormir, dando “tratos à bola”, a imaginar como conseguir o dinheiro necessário.
Sua angústia maior: não tinha de onde tirar soma tão grande. Vive de humilde pensão deixada pelo marido.
Recomendei-lhe que esquecesse o assunto e fosse cuidar da vida. Nada de mal lhe aconteceria. Todas aquelas informações eram meros recursos para impressioná-la, extorquindo seu dinheiro.
***
Incrível do que são capazes aqueles que apostam na ingenuidade humana.
Basta fechar os olhos, dizer que o “guia” está ali, e pronto! Os “clientes” aceitam qualquer patacoada como a mais pura expressão da verdade.
Dizendo-se especializados em desfazer “amarrações”, esses mistificadores usam sempre a mesma técnica:
Primeiro assustam as vítimas com “revelações” escabrosas.
Depois, propõem-se a resolver tudo, mediante o pagamento de determinada importância.
Apavorados, os incautos consulentes fazem das tripas coração para atender às exigências.
Dirá você, meu caro leitor:
– Consultei, certa feita, um médium desse tipo. Fez revelações acertadas.
É possível que aconteça, quando se trata de alguém que possui sensibilidade psíquica.
Nesse caso, a consulta é ainda mais inconveniente.
O “guia” vai apenas confirmar o que está na sua cabeça.
Se estiver desconfiado de que a mulher anda flertando com o vizinho, logo virá a informação:
– Cuidado! Sua mulher anda flertando com o vizinho!
O médium apenas captou suas suspeitas, situando mera fantasia por realidade.

***
Qual o comportamento ideal, em relação ao assunto? – perguntará você.
E eu lhe respondo:
Jamais procure tais “serviços”.
Eles não têm absolutamente nada a ver com a Doutrina Espírita, nem com os verdadeiros mentores espirituais. Estes cuidam de assuntos mais importantes. Não perdem tempo com intrigas e fofocas.
Portanto, antes de ir atrás dessas fantasiosas “desamarrações”, é preciso desamarrar a nossa cabeça, exercitando discernimento.
O presente é fruto de nosso passado.
O futuro será fruto de nosso presente.
Nada melhor, portanto, se você cogita de um porvir feliz, que trabalhar por ele, com o mais legítimo de todos os recursos:
A prática do Bem.


Do Livro Para Rir e Refletir
Richard Simonetti

Tensão ou harmonia?



Da preciosa coleção da Revista Espírita (editada por Kardec no período de 1858 a 1869), extraímos para o leitor pequeno trecho do texto “Organização do Espiritismo” – publicado na edição de dezembro de 1861 – cuja atualidade impressiona face aos desafios sempre encontrados pelas instituições e grupos no que se refere aos relacionamentos entre seus integrantes.
A velha questão dos melindres de suscetibilidades, dos conflitos de opinião e daí os desdobramentos próprios da desorganização das ideias diferentes, leva muitas iniciativas ao fracasso, interrompe bênçãos de trabalho, afasta valorosos cooperadores, com prejuízos evidentes à proposta espírita.
Como o fim do Espiritismo é essencialmente moral, espera-se que busquemos nesse esforço do autoaprimoramento as bases de nossa atuação individual e coletiva, para não ocorrência dos prejuízos bem próprios de nossa condição humana.
Acompanhemos o pequeno trecho selecionado, que se refere aos grupos:
“(...) Se eles forem formados de bons elementos, serão tantas boas raízes que darão bons rebentos.
Se, ao contrário, são formados de elementos heterogêneos e antipáticos, de espíritas duvidosos, se ocupando mais da forma que do fundo, considerando a moral como a parte acessória e secundária, é preciso se prever polêmicas irritantes e sem desfecho, melindres de suscetibilidades, seguido de conflitos precursores da desorganização.
Entre verdadeiros espíritas, tais como os havemos definido, vendo o propósito essencial do Espiritismo na moral, que é a mesma para todos, haverá sempre abnegação da personalidade, condescendência e benevolência, e, por consequência, certeza e estabilidade nos relacionamentos. Eis porque insistimos tanto nas qualidades  fundamentais. (“...)”
A sempre constante questão dos conflitos ou da harmonia está no comportamento individual que se reflete diretamente nos grupos.
 Exatamente aquele comportamento de boa vontade que busca superar e egoísmo e a vaidade para o bem coletivo.
Quando nos fechamos em pontos de vistas, quando nos achamos melhores que os demais, quando pensamos que nossa opinião é a melhor, quando não valorizamos o esforço alheio ou quando optamos pelos tristes caminhos do orgulho, serão nossos acompanhantes a irritação, a intolerância e seus desdobramentos próprios.
Quando, todavia, optamos pelo caráter solidário dos relacionamentos, quando desejamos sinceramente o bem de todos ou direcionamos nossas ações para a permanência da harmonia, os frutos de nossas realizações conjuntas serão doces e sempre com benefícios gerais que extrapolam os limites do próprio grupo, pois que se irradiam de si mesmo em favor de muitos.
É que o afeto é capaz desses prodígios. O afeto é construído, valorizando, conquistando, estimulando, vivendo e cultivando.
Será de muito oportunismo uma releitura do texto “Organização do Espiritismo”, especificamente voltado à formação ou manutenção de grupos espíritas.
 

por:
Orson Peter Carrara


Amor e carma

Muitas criaturas se ligam a outras por impositivos da Lei de Causa e Efeito, que geralmente faz com que o credor se uma ao devedor de si mesmo. Nas dificuldades de relacionamento, costuma-se evocar esse princípio como justificativa para as desavenças domésticas, porém, deve-se estar atento para as imperfeições próprias de cada um e que não estão relacionadas com o modo de ser do outro.
O casamento é portal de crescimento, qualquer que seja o passado dos cônjuges. Ligar-se a alguém é sempre opção de cada um, sem que signifique necessariamente anterior ligação cármica.
Quando o amor está presente numa relação, ele é capaz de suplantar qualquer carma passado, desde que o indivíduo não projete no outro suas próprias imperfeições.
O amor transcende a matéria da carne renascendo a cada nova etapa da Vida do espírito. Os vínculos afetivos entre as criaturas se fortalecem a cada encarnação, objetivando o amor puro e sincero.
Os vínculos que firmamos numa encarnação não quebram aqueles que fizemos nas vidas anteriores. O verdadeiro amor não se acaba nem diminui com a convivência do ser amado com outrem. Casar com alguém não significa prender-se àquela pessoa nas encarnações futuras. Os vínculos se fortalecem pelo amor, porém, podemos estar ligados a alguém se o agredimos numa existência e ele não se equilibrou, necessitando novamente de nossa presença em sua vida para o aprendizado mútuo.
Entregar-se ao comando do amor é libertar-se dos atavismos que nos prendem ao sofrimento. Quem se deixa viver pelo amor alcança a plenitude libertando-se de carmas passados, entendendo o sofrimento como processo educativo salutar.
Transformar seu carma negativo em positivo é colocar a energia do amor a serviço do Bem Maior. Só o amor pode mobilizar e alterar o destino no sentido do crescimento espiritual.
O amor nunca se acaba. Por mais inconsequentes sejam as atitudes do outro, o amor verdadeiro permanece, desculpando e amparando o ser amado que momentaneamente desequilibrou-se.
Quando o amor já vem ferido de outras vidas, costuma reaparecer nas uniões provacionais. Se você se encontra nessa situação, verifique o que ainda não aprendeu com a nova união. É importante fazê-lo antes que seja tarde, para sua felicidade.
As uniões ditas cármicas podem se tornar uniões felizes desde que um dos cônjuges se disponha ao amor e a tornar o outro feliz. Repense sua união a fim de não ter que retornar nas mesmas circunstâncias.
Se você não mais deseja reencarnar na companhia de determinada pessoa, não a agrida. Termine a relação sem gerar carma negativo. Aprenda a conviver, como amigos.
Perceba que o amor de Deus coloca a serviço do ser humano Sua misericórdia, para diminuir os efeitos das atitudes negativas do passado, permitindo-lhe sua recuperação.
Não espere tempo algum para ajudar alguém com seu amor, sob pretexto da necessidade de que haja sofrimento para o progresso espiritual dele. Se possível, diminua aquele sofrimento.
Aprende você e aprende o outro.
Ninguém é dono da vida de ninguém. A desencarnação promove a alforria necessária para muitos indivíduos que se sentem presos na vida a alguém. Liberte-se libertando o outro da posse excessiva.
Não se obrigue a vincular-se a alguém por pena ou piedade.
Verifique suas necessidades evolutivas e o bem que você poderá fazer ao outro lhe permitindo sentir-se em igualdade de condições com seus semelhantes. Se a vida o colocou ao lado de alguém que necessita de cuidados, faça-o com consciência de seu papel e de sua responsabilidade.
O carma do filho deficiente coloca frente a frente antigos amores e, às vezes, antigos desafetos. A mãe que se dedica ao filho deficiente é duas vezes mãe, pois coloca acima de tudo o amor pelo seu filho que é diferente dos outros.
Não guarde mágoa em seu coração. Não o manche com a tinta negra do ódio. O verdadeiro amor não se magoa, pois compreende a atitude do outro, própria de seu nível de evolução.

Jesus reencarnou sem carma para nos ensinar, através de sua mensagem, como aprender com nossos equívocos do passado.

Adenáuer Novaes



O Destino: Uma Construção Pessoal

A grande incógnita do ser humano é o seu próprio viver.  Por que nascemos, vivemos e morremos? Por que existem tantas disparidades entre os indivíduos? Por que as existências individuais, mesmo dentro de uma família, são de tal forma diversas umas das outras? Por que uns nascem em berço de ouro, enquanto outros numa enxerga? Porque uns nascem fortes e saudáveis, enquanto outros com deficiências? Enfim, porque uns vivem muito, outros um pouco, enquanto outros morrem antes de nascer?
Filosofias e religiões sempre buscaram responder a tais indagações, oferecendo teorias e crenças de diversos aspectos e qualidade. Todavia, o sucesso delas é sempre pontual, o que se pode ver pelo imenso espectro de escolas filosóficas e crenças religiosas. Até mesmo a Ciência, através de muitos dos seus corifeus, tem oferecerido respostas às preocupações do ser humano com seu fado, sem qualquer sucesso, inclusive porque, ao fazer isso, está agindo como um orangotango numa loja de artigos delicados e frágeis.
O Espiritismo, surgindo na metade do século XIX, tem uma qualidade importante, na resposta que oferece a essas questões. Primeiramente não foi fruto de uma revelação pessoal, nem de especulações filosóficas. Em pleno século em que a Ciência tornou-se o paradigma fundamental, a faculdade mediúnica saiu do anonimato das crendices supersticiosas, e se ofereceu ao pensamento científico para ser estudada e analisada. O grande mérito de Allan Kardec foi entender que o fenômeno era produzido por seres inteligentes, conquanto invisíveis. E, sem apresentar teorias a priori, deixou que o fenômeno se explicasse. E, daí, surgiu um corpo de doutrina, com base experimental e consequências filosóficas e morais.
Ao provar que a vida não termina no sepulcro, por não ser mero atributo do corpo, mas condição fundamental do espírito, demonstrou que o ser humano é composto de uma parte material, que tem um tempo limitado de ação, e de uma alma, perdurável, a qual é a verdadeira razão da existência. Como Anton van Leeuwenhoek, com seu microscópio, desvendou o mundo da vida infinitamente pequena, o Espiritismo abriu a cortina do mundo espiritual, mostrando que, como sempre acreditaram as religiões, existe uma dimensão invisível, que envolve e permeia o mundo material, para onde vão as almas dos que morreram. Em continuação, as próprias almas que alí vivem, explicaram que existe uma constante troca dialética entre os dois planos, pois as almas dos mortos voltam à Terra, em novos corpos, num processo de evolução e aprimoramento, semelhante ao que acontece com a evolução e aprimoramento biológico dos seres.
E, como a alma é o repositório das experiências vividas, ela gera em seu íntimo uma série de crenças, neuroses e complexos, os quais influenciam o seu modo de viver e suas condições existenciais toda vez que retorna ao mundo físico, bem como quando o deixa, para viver no mundo invisível de onde saiu.
O destino, portanto, é uma construção sistemática dos indivíduos, um reflexo de seus conflitos internos e externos. Seja no mundo espiritual ou no mundo material, a alma está sempre criando seus problemas e dificuldades pessoais, os quais terminam por se chocar com os mesmos processos dos outros seres humanos, principalmente do seu em torno, gerando um sem número de embates, sofrimentos e dificuldades sociais, que caracterizam o mundo onde vivemos. Existe somente um determinismo do qual o espírito não pode fugir: o de viver. A essa imposição podemos acrescentar outra: a inelutabilidade do progresso, pois, faça o que fizer, aja ou viva como queira, a alma progride sempre, podendo imfluenciar, apenas, na velocidade do seu progresso, e mais nada.
Como construção individual, o destino não é mero fruto de uma acaso cego, como querem alguns filósofos, nem imposição autoritária de deuses prepotentes, fiandeiras arbitrárias ou uma força impessoal, uma Moira insensível. Ele nasce das escolhas conscientes ou inconscientes que cada indivíduo faz, diante do meio em que nasceu e/ou vive.
Ora, à luz das descobertas espíritas, o "fado" pessoal é fruto de escolhas pessoais, e suas consequências, boas ou más, somente podem ser analisadas à luz da responsabilidade pessoal. Somos os únicos criadores e responsáveis pelo nosso destino. Assim, temos de praticar a norma nietzschiana do "amor fati", quer dizer, temos de amar o nosso destino, como escolha individual que é, e mudarmos nossos critérios de escolha diante das circusntâncias em que vivemos, não só para transformar as consequências que geraram o destino atual, mas para gerarmos um destino mais feliz e prenhe de possibilidades de desenvolvimento, com o mínimo possível de sofrimento.

Djalma Argollo 


Depoimento

A mensagem de J. P., que designamos apenas por suas Iniciais, em virtude da comovente lição que nos traz, foi recebida na noite de 13 de maio de 1954, no encerramento de nossas tarefas.
Para elucidar certas passagens desta comunicação psicofônica, é forçoso esclarecer que ele nos visitara anteriormente, sendo socorrido pela doutrinação evangélica.
É curioso notar que uma de nossas irmãs, elemento efetivo de nosso Grupo e esposa de um dos nossos companheiros, meses antes da mensagem que aqui transcrevemos, revelava todos os sintomas de uma gravidez aparente e dolorosa, tendo sido tratada espontaneamente, em várias reuniões sucessivas, por um de nossos Benfeitores Espirituais que, carinhosamente, a libertou, através de passes magnéticos, das estranhas impressões de que se via possuída.
Com grande surpresa para nós, viemos então, a saber, que o Espírito J. P. era o candidato ao renascimento que não chegou a positivar-se.
Cremos sejam necessárias as presentes anotações, não só para que a mensagem seja devidamente aclarada, como também para estudarmos importantes Incidentes que podem ocorrer, entre dois mundos, em nossa vida comum.
Com a inflexão de quem chorava intimamente, o visitante assim se expressou, sensibilizando-nos a todos:

13 de maio de 1954!...

Há precisamente sessenta e seis anos eram declarados livres todos os escravos no território brasileiro.
E talvez comemorando o acontecimento, determinam os instrutores desta casa vos fale algo de minha história, de minha escura história, porquanto, em seus últimos lances, ela se encontra de certo modo associada à obra espiritual de vosso Grupo.

J. P. foi o meu nome em Vassouras, a fidalga Vassouras do Segundo Império.
Resumirei meu caso, tanto quanto possível, porque, como é fácil perceberdes, não passo ainda de pobre viajante da sombra, em árduo serviço na própria regeneração.

Em março de 1888 fui convidado a participar de expressiva reunião da Câmara Vassourense por meu velho amigo Doutor Correia e Castro. (1)
Cogitava-se da adoção de medidas compatíveis com a campanha abolicionista, então na culminância.

Alguns conselheiros propuseram que todos os fazendeiros do Município instituíssem a liberdade espontânea, a favor do elemento cativo, com a obrigação de os escravos alforriados prosseguirem trabalhando, por mais cinco anos consecutivos, numa tentativa de preservação da economia regional.
Discussões surgiram acaloradas.

Diversos agricultores inclinavam-se à ponderação e à benevolência.
Entretanto, eu era daqueles que pugnavam pela escravatura irrestrita.
Encolerizado, ergui minha voz.
Admitia que o negro havia nascido para o eito.
Nada de concessões nem transações.
O senhor era senhor com direito absoluto; o escravo era escravo com irremediável dependência.

Aderi ao movimento contrário à proposta havida, e nós, os da violência e da crueldade, ganhamos a causa da intolerância porque, então, Vassouras prosseguiu esperando as surpresas governamentais, sem qualquer alteração.
De volta ao lar, porém, vim, a saber, que a inspiração da providência sugerida partira inicialmente de um homem simples, de um homem escravizado...

Esse homem era Ricardo, servo de minha casa, a quem presumia dedicar minha melhor afeição.
Era meu companheiro, meu confidente, meu amigo... Inteligência invulgar traduzia o francês com facilidade. Comentávamos juntos as notícias da Europa e as intrigas da Corte... Muitas vezes, era ele o escrivão predileto em meus documentários, orientador nos problemas graves e irmão nas horas difíceis...
Minha amizade, contudo, não passava de egoísmo implacável.

Admirava-lhe as qualidades inatas e aproveitava-lhe o concurso, como quem se reconhece dono de um animal raro e queria-o como se não passasse de mera propriedade minha.
Enraivecido, propus-me castigá-lo.
E, para escarmento das senzalas, na sombra da noite, determinei a imediata prisão de quem havia sido para mim todo um refúgio de respeito e carinho, qual se me fora filho ou pai.
Ricardo não se irritou ante o desmando a que me entregava.
Respondeu-me às perguntas com resignação e dignidade.

Calmo, não se abateu diante de minhas exigências. Explicou-se, imperturbável e sereno, sem trair a humildade que lhe brilhava no espírito.
Aquela superioridade moral atiçou-me a ira.
Golpeado em meu orgulho, ordenei que a prisão no tronco fosse transformada em suplício.
Gritei, desesperado.
Assemelhava-me a fera a cair sobre a presa.
Reuni minha gente e as pancadas — triste é recordá-las! — dilaceraram-lhe o dorso nu, sob meus olhos impassíveis.
O sangue do companheiro jorrou, abundante.
A vítima, contudo, longe de exasperar-se, entrara em lacrimoso silêncio.
E, humilhado por minha vez, à face daquela resistência tranquila, induzi o capataz a massacrar-lhe as mãos e os pés.
A recomendação foi cumprida.
Logo após, porque o sangue borbotasse sem peias, meu carrasco desatou-lhe os grilhões...
Ricardo, na agonia, estava livre...
Mas aquele homem, que parecia guardar no peito um coração diferente, ainda teve forças para arrastar-se, nas vascas da morte, e, endereçando-me inesquecível olhar, inclinou-se à maneira de um cão agonizante e beijou-me os pês...

Não acredito estejais em condições de compreender o martírio de um Espírito que abandona a Terra, na posição em que a deixei...
Um pelourinho de brasas que me retivesse por mil anos sucessivos talvez me fizesse sofrer menos, pois desde aquele instante a existência se me tornou insuportável e odiosa.
A Lei Áurea não me ocupou o pensamento.
E quando a morte me requisitou à verdade, não encontrei no imo do meu ser senão austero tribunal, como que instalado dentro de mim mesmo, funcionando em ativo julgamento que me parecia nunca terminar...
Lutei infinitamente.
Um homem perdido por séculos, em noite tenebrosa, creio eu padece menos que a alma culpada, assinalando a voz gritante da própria consciência.
Perdi a noção do tempo, porque o tempo para quem sofre sem esperança se transforma numa eternidade de aflição.
Sei apenas que, em dado instante, na treva em que me debatia, a voz de Ricardo se fez ouvir aos meus pés:
— Meu filho!... meu filho!...
Num prodígio de memória, em vago relâmpago que luziu na escuridão de minhalma, recordei cenas que haviam ficado a distância (2), quadros que a carne da Terra havia conseguido transitoriamente apagar...
Com emoção indizível, vi-me de novo nos braços de Ricardo, nele identificando meu próprio pai... meu próprio pai que eu algemara cruelmente ao poste de martírio e a cuja flagelação eu assistira, insensível, até ao fim...
Não posso entender os sentimentos contraditórios que então me dominaram...
Envergonhado, em vão tentei fugir de mim mesmo. Em desabalada carreira, desprendi-me dos braços carinhosos que me enlaçavam e busquei a sombra, qual o morcego que se compraz tão somente com a noite, a fim de chorar o remorso que meu pai, meu amigo, meu escravo e minha vítima não poderia compreender...
No entanto, como se a Justiça, naquele momento, houvesse acabado de lavrar contra mim a merecida sentença condenatória, após tantos anos de inquietação, reconheci, assombrado, que meus pés e minhas mãos estavam retorcidos...
Procurei levantar-me e não consegui.
A Justiça vencera.
Achava-me reduzido à condição de um lobo mutilado e urrei de dor... Mas, nessa dor, não encontrei senão aquelas mesmas criaturas que eu havia maltratado, velhos cativos que me haviam conhecido a truculência... E, por muitos deles, fui também submetido a processos pavorosos de dilaceração. (3)
Passei, porém, a rejubilar-me com isso.
Guardava, no fundo, a consolação do criminoso que se sente, de alguma sorte, reabilitado com a punição que lhe é imposta.
A expiação era serviço que eu devia à minha própria alma.
Se algum dia pudesse rever Ricardo — refletia —, que eu comparecesse diante dele como alguém que lhe havia experimentado as provações.
Lutei muito, repito-vos!...
Sofri terrivelmente, até que, certa noite, fui conduzido por invisíveis mãos ao lar de um companheiro em cuja simpatia recolhi algum descanso...
Aí, de semana a semana, comecei a ouvir palavras diferentes, ensinamentos diversos, explanações renovadoras. (4)
Modificaram-sê-me os pensamentos.
Doce bálsamo alcançou-me o espírito dolorido. E, desse santuário de transformação, vim, certa feita, ao vosso Grupo. (5)
Há quase dois anos, tive o conforto de desabafar-me convosco, de falar-vos de meus padecimentos e de receber-vos o óbolo de fraternidade e oração.
Mas porque desejasse associar-me mais intimamente ao lar em que me reformava, atirei-me apaixonadamente aos braços dos amigos que me acolhiam, intentando consolidar mais amplamente a nossa afeição.
Queria renascer, projetando-me em vosso ambiente... Para isso, busquei-vos como o sedento anseia pela fonte... E tudo fiz para exteriorizar-me; entretanto, eu não possuía forças para mentalizar as mãos e os pés!...
Se eu retomasse a carne, seria um monstro e se concretizasse meu sonho louco teria cometido tremendo abuso...
Além disso, estaria na posição de um aleijado, simplesmente regressando do inferno que havia gerado para si mesmo.
Nesse ínterim, contudo, os instrutores de vossa casa me socorreram...
Auxiliaram-me, sem alarde, noite a noite, e, graças ao Senhor, meu propósito foi frustrado.
Mas, se é verdade que não pude retratar-me de novo, no campo da densa matéria, para tentar o caminho de reencontro com Ricardo, recebi convosco, ao contato da prece, o reajuste de minhas mãos e de meus pés.
Orando em vossa companhia e mentalizando a minha renovação em Cristo, minha vida ressurge transformada.
Agora, esperarei o dia de minha volta ao campo normal da experiência humana, a fim de, em me banhando na corrente da vida física, apagar o passado e limpar minhas culpas, através do trabalho, com a minha justa escravização ao dever, para, então, mais tarde, cogitar da suspirada ascensão.
Mas, porque recompus minha forma, aqui estou convosco e vos digo:
— Aleluia!...
— Viva a liberdade!...
Louvo a liberdade que me permite agora pensar em receber o bem-aventurado cativeiro da prova, favorecendo-me por fim o galardão da cura!...
Amigos, eis que nos achamos em 13 de maio de 1954!...
Para minhalma, depois de 66 anos, raia um novo dia...
Para mim, a luz não tarda!... a luz de renascer! E assim me expresso, porque somente na esfera de luta em que vos encontrais como privilegiados tarefeiros, por bondade de Nosso Senhor Jesus-Cristo, é que poderei encontrar o sol da redenção.
Agradeço-vos a todos, recomendando-me feliz às preces de todos os companheiros, preces que constituem vibrações de amor que ainda me empenho em recolher, como sementes de renovação para o dia de amanhã que espero, em Jesus, seja enfim abençoado...
Que o Senhor nos ampare.

Espírito J. P.

Instruções psicofônicas – psicofonia por Chico Xavier

1) O comunicante refere-se a pessoa de suas relações íntimas, em 1888. — Nota do organizador.
2) Ao contato do benfeitor espiritual, a entidade sofredora entrou a lembrar-se de existência anterior, em que a vítima lhe fora pai na experiência terrestre. — Nota do organizador.
3) Refere-se o comunicante a sofrimentos que experimentou nas regiões inferiores da vida espiritual, sob a vingança de muitas das suas antigas vítimas revoltadas. — Nota do organizador.
4) Refere-se o comunicante ao culto doméstico do Evangelho, existente no lar do nosso companheiro de quem se havia aproximado. — Nota do organizador.5) A entidade reporta-se à primeira visita que fez ao nosso Grupo, quando foi atendida por nossa casa, através da incorporação mediúnica, em 1952. — Nota do organizador.

Moléstia Mental Explicada sob o ponto de vista Espírita

A jovem britânica Sara Green tinha um amplo histórico de problemas de saúde mental desde os 11 anos de idade. Ela gostava de escrever em seu diário, relatando as dificuldades que enfrentava no dia a dia. Aos 17 anos de idade, foi internada numa clínica psiquiátrica na Inglaterra para tratamento, mas acabou suicidando-se por automutilação, numa das unidades de tratamento especial.
Antes de ser internada, Sara foi vítima de bullying no colégio. Em face disso, se autoflagelava para tentar aliviar sua consternação. Cria que os colegas não a aceitavam na escola, que a odiavam pelo que era, mas expunha que não se gostava também. Green não conseguia entender como se deixou ser afetada nesse nível de anulação da autoestima.
Enquanto esteve internada, as automutilações se agravaram. O caso de Sara não é único. Serviços de saúde mental, seja no Reino Unido ou em outros países, têm demonstrado falhas ao lidar com crianças e adolescentes portadoras de distúrbios mentais. Segundo a ONG Inquest, somente na Inglaterra, desde 2010 nove jovens morreram durante internações em clínicas de tratamento psiquiátrico.
Não trataremos as eventuais falhas da clínica inglesa. Explanaremos rapidamente sobre os transtornos, as automutilações ou autolesões. Tais ocorrências são associadas a um distúrbio psicológico conhecido como Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), classificada pelo psicanalista Adolph Ster como uma patologia entre a neurose e psicose que gera uma disfunção no metabolismo cerebral, desintegrando o ego e gerando um sentimento de perda desesperador.
A literatura específica anota que os sintomas (TPB) costumam surgir durante a adolescência, permanecendo por aproximadamente uma década na maioria dos casos. As pessoas acometidas desse transtorno sentem uma necessidade enorme de autopunição pelos insucessos e frustrações pessoais na vida cotidiana. Os pesquisadores acreditam que pode ter origem genética também associada a fatores traumáticos durante a infância ou adolescência, como possíveis abusos sexuais, negligências, separações e orfandade.
A pessoa acometida do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) sente alívio emocional cada vez que se machuca. Entre os frequentes ferimentos associados estão: esmurrar-se, chicotear-se, enforcar-se por alguns instantes, morder-se, apertar ou reabrir feridas, arrancar os cabelos, queimar-se, furar-se propositalmente com objetos pontiagudos, beliscar-se, ingerir agentes corrosivos e objetos, envenenar-se por overdose de remédios ou produtos químicos (sem intenção de suicídio), bater com a cabeça na parede, esmurrar superfícies duras.
O fato é que a ciência clássica não alcança elucidar suficientemente as razoáveis causas dos distúrbios psicológicos e mentais. A psiquiatria se mantém aprisionada aos limites do cérebro, fonte que, como nós espiritas sabemos, não é a raiz essencial das patologias mentais, mas tão somente a exteriorização do efeito da enfermidade.
Gostem ou não, aceitem ou não, em verdade, o Espiritismo abalou as estruturas da ciência mecanicista vigente e trouxe uma insurreição no campo das idéias materialistas, inovando as considerações religiosas e científicas. A ideia da existência de um ente extra físico (Espírito) pôde elucidar a origem de muitos enigmas patológicos da psiquê.
Nesse sentido, o Espiritismo avança muito mais ao debater e analisar racionalmente a Lei da reencarnação, explicando a questão dos vínculos de causas atuais e passadas das doenças. A Lei de causa e efeito amplia o debate e auxilia a compreender, por exemplo, que a vida presente é reflexo do que temos sido até hoje, incluindo aí as nossas experiências pretéritas (reencarnações anteriores).
Os atuais quadros psicopatológicos devem ser analisados sob esse prisma (causa e efeito), como reflexo dos distúrbios morais de vidas anteriores, considerando sua manifestação de uma forma invariavelmente dramática, trazendo sofrimento tanto para o doente como para a família; daí concluir-se que realmente signifique repercussão de desvios éticos das existências pregressas.
A partir do momento da concessão da reencarnação com todas as fases, durante e após a concepção, o reencarnante imprime as suas necessidades e heranças genéticas nas moléculas de DNA do novo corpo físico, comprometendo ou até mesmo potencializando as funções dos neurotransmissores cerebrais. As experiências de vidas anteriores do Espírito, portanto, são os legados trazidos e construídos por si mesmo, plasmando-se-lhe o fadário. Se houver sincero desejo de redimir-se das faltas, o mecanismo da Lei de causa e efeito aplica-lhe o abrandamento correspondente aos ecos dos deslizes morais que lhe pesam na economia moral.
Isso equivale a assegurar que o gérmen da doença mental já estava registrado no perispírito do reencarnante. Da neurose mais simples, passando pela demência, histeria, ansiedade mórbida, esquizofrenia, a gênese é sempre espiritual. Destacando no debate que a doença mental é expiação ou prova também para os pais que podem ter sido coadjuvantes das culpas desses doentes.
Compreendemos que a cura integral dos quadros psicopatológicos é muito difícil porque consta do plano reencarnatório do Espírito, mas a dor, tanto do doente quanto da família, pode ser suavizada se houver em mente nos envolvidos no drama a certeza de que Deus não coloca fardos pesados em ombros frágeis.
Sob o ponto de vista espírita, a terapêutica no tratamento das tragédias psicopatológicas (obsessivas ou não) é essencialmente preventiva, pois o Espiritismo sugere a resignação ante às vicissitudes da vida que poderiam causar o acirramento ou a atenuação da doença. O autoconhecimento, a busca constante da reforma íntima e a transformação pessoal de cada envolvido constituem meios eficazes de manter a saúde psíquica de todos, já que qualquer um de nós pode ser doente em potencial.
Se atinarmos para a vida eterna, notaremos que sofremos hoje tão somente uma fase diminuta e transitória da existência. Urge reconhecer, por isso mesmo, que a cruz que transportamos, embora possa parecer excessivamente pesada, pode ser perfeitamente carregada se mantivermos a força moral e confiança na Providência Divina, e todo esforço será recompensado consoante estabelece os Estatutos do Criador, em cujos códigos jamais haverão espaços para dispositivos injustos.
Jorge Hessen


Em Jornada










Amigos de jornada.

Abençoa a prova redentora que te eleva e equilibra.

Quando a subida se fizer mais difícil, faze uma pausa, adentra o santuário silencioso da prece, e sentirás a presença amiga aqueles que te amam e te guiam.

Esvazia a mente de todo pensamento sombrio.

Recebe cada amanhecer como promessa de novas vitórias.

Prepara-te para o repouso noturno como quem segue novos aprendizados, na companhia dos benfeitores espirituais.

Nada temas.

Segue e confia, abrigando-te sempre no recanto pacífico da tua consciência, onde te sentirás seguro e feliz, porque ali habita o Pai.

Espírito Scheilla

Retrato de Mãe

Depois de muito tempo,
sobre os quadros sombrios do calvário.
Judas, cego no além, errava solitário...
Era triste a paisagem, o céu era nevoento...

Cansado de remorso e sofrimento,
Sentara-se a chorar...
Nisso, nobre mulher de planos superiores,
Nimbada de celestes esplendores,
Que ele não conseguia divisar,
Chega e afaga a cabeça do infeliz.
Em seguida, num tom de carinho profundo,
Quase que em oração ela diz:
- Meu filho, porque choras?


Acaso não sabeis? – replica o interpelado,
Claramente agressivo.
Sou um morto e estou vivo.
Matei-me e novamente estou de pé,
Sem consolo, sem lar, sem amor e sem fé...
Não ouvistes falar em Judas, o traidor?
Sou eu que aniquilei a vida do Senhor...
A princípio, julguei poder fazê-lo rei,
Mas apenas lhe impus, sacrifício, martírio, sangue e cruz.
E em flagelo e aflição
Eis que a minha vida agora se reduz...
Afastai-vos de mim,
Deixai-me padecer neste inferno sem fim...
Nada me pergunteis, retirai-vos senhora,
Nada sabeis da mágoa que me agita...
O assunto que lastimo é unicamente meu...

No entanto a dama calma respondeu:
- Meu filho, sei que choras, sei que lutas,
Sei a dor que causa o remorso que escutas...
Venho apenas falar-te
Que Deus é sempre amor em toda parte...
E acrescentou serena:
- A bondade de Deus jamais condena:
Venho por mãe a ti, buscando um filho amado.
Sofre com paciência a dor e a prova.
Terás em breve, uma existência nova...
Não te sintas sozinho ou desprezado!

Judas interrompeu-a e bradou, rude e pasmo:
- Mãe? Não venhais aqui com mentira e sarcasmo.
Depois de me enforcar num galho de figueira,
Para acordar na dor,
Sem mais poder fugir à vida verdadeira.
Fui procurar consolo e força de viver.
Ao pé da pobre mãe que forjara o ser !..
Ela me viu chorando e escutou meus lamentos.
Mas teve medo dos meus sofrimentos.
Expulsou-me a esconjuros,
Chamou-me monstro, por sinal
Disse que eu era
Unicamente o espírito do mal,
Intimidou-me a terrível retrocesso,
Mandando que apressasse o meu regresso
Para a zona infernal de onde eu vinha...
Ah ! Detesto lembrar a horrível mãe que eu tinha...
Não me faleis de mães, não me faleis de amor,
Sou apenas um monstro sofredor...

Inda assim – disse a dama docemente:
- Por mais recuses, não me altero,
Amo-te filho meu, amo-te e quero
Ver-te de novo a vida
Maravilhosamente revestida
De paz e luz, de fé e elevação...
Virás comigo à terra,
Perderás pouco a pouco, o ânimo violento,
Terás o coração
Nas águas de bendito esquecimento.
Numa existência de esperança,
Levar-te-ei comigo
A remansoso abrigo.
Dar-te-ei outra mãe ! Pensa e descansa !...

E Judas neste instante.
Como quem olvidasse a própria dor gigante,
Ou como quem se desgarra
De pesadelo atroz,
Perguntou: - quem sois vós?
Que me falais assim, sabendo-me traidor?
Sois divina mulher, irradiando amor,
Ou anjo celestial de quem pressinto a luz?

No entanto ela a fitá-lo frente a frente,
Respondeu simplesmente:
- Meu filho, eu sou a mãe de Jesus!!!

Espírito Maria Dolores
Francisco Cândido Xavier