Doutrinação de Espíritos




Por Sergio Biagi Gregório                                                            





1. INTRODUÇÃO
O que é a doutrinação? Há necessidade de os encarnados doutrinarem os desencarnados? Por que os Espíritos não doutrinam os próprios Espíritos? Há regras para conversar com os Espíritos? Como Allan Kardec tratou deste assunto?

2. CONCEITO  
Doutrinação. É uma terapia de amor em que o doutrinador procura esclarecer os Espíritos maus e sofredores a trilharem o caminho do bem, da evolução espiritual.

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS  
Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, diz-nos que há diferentes ordens de Espíritos. Na escala apresentada, que não é absoluta, exalta as qualidades que já adquiriram e as imperfeições de que ainda não se livraram.
Espíritos há que já desencarnaram e não o sabem. Por isso, acabam influenciando os seus entes queridos e amigos mais próximos.
É preciso ter cuidado com os Espíritos mistificadores, embusteiros que nada mais fazem do que perturbar os que estão encarnados.
Em muitos casos, a afinidade é bastante intensa. Daí, os diversos tipos de obsessão.
O trabalho de doutrinação não se resume às poucas horas que o doutrinador conversa com os Espíritos incorporados aos médiuns, mas prolonga-se ao longo do tempo.

4. DOUTRINADOR E DOUTRINA ESPÍRITA

4.1. O DOUTRINADOR
É a pessoa que se incumbe de dialogar com os Espíritos desencarnados, necessitados de ajuda e esclarecimento. Há um médium que serve de intermediário aos Espíritos sofredores e o dirigente-esclarecedor. Além disso, deve-se zelar pelo preparo de ambiente e dos médiuns, a fim de que haja um bom trabalho de doutrinação.

4.2. OBJETIVOS DA DOUTRINAÇÃO
Esclarecer os Espíritos ignorantes, estimular os Espíritos fracos e confortar os Espíritos sofredores. Há que se ter em mente que os Espíritos não se tornam santos simplesmente porque deixaram a vestimenta física. Continuam a agir da mesma forma só que sem o corpo físico. Ao dirigente-esclarecedor cabe dialogar com esses Espíritos de uma forma respeitosa no sentido de abrir-lhes a mente para o futuro que os aguarda.

4.3. CONHECIMENTO DOUTRINÁRIO
Uma das principais características do doutrinador espírita é ter sólida formação doutrinária, familiaridade com o Evangelho de Jesus e autoridade moral.
Necessita, assim, de debruçar-se sobre as obras básicas e complementares. Para tanto, não deve medir esforços de estar sempre se aperfeiçoando porque, no fundo, é a sua condição moral elevada que realmente convence um Espírito ainda absorto no mal.

5. DIALOGANDO COM OS ESPÍRITOS
No diálogo com os Espíritos, há algumas perguntas iniciais: Você sabe onde se encontra? Conhece o seu estado? Já ouviu falar de Jesus? Conhece a justiça de Deus?
Como dissemos anteriormente, os Espíritos encontram-se em diversos graus de evolução. Eis alguns exemplos, extraídos do livro Diálogo com as Sombras, de Hermínio C. Miranda:

5.1. ESPÍRITOS SOFREDORES
Quando o doutrinador se deparar com os Espíritos sofredores obsessores, pois, há sofredores, que não são obsessores deve procurar convencê-los de que os sintomas apresentados são reflexos do corpo físico. Em alguns casos, é útil revelar-lhes a sua real condição, mesmo que entre em contradição consigo mesmo. O importante é despertá-lo para a vida espiritual.

5.2. ESPÍRITOS MALDOSOS
Os Espíritos maldosos se comprazem na prática do mal. Quando são encaminhados para um trabalho mediúnico no Centro Espírita, o doutrinador deve mostrar-lhes as recompensas pela prática do bem, alertando-os para se afastarem do mal. Sempre que possível tentar restabelecer a sua fé e a confiança em Deus.

5.3. ESPÍRITOS RECALCITRANTES
Os Espíritos recalcitrantes, como o próprio nome diz,  são aqueles que estão repetidamente praticando o mal e atrapalhando a vida dos encarnados. Em qualquer situação, deve-se respeitar o livre-arbítrio do Espírito manifestante. Caso não se obtenha o êxito esperado, convidá-lo para voltar outro dia.

6. NOTAS DA REVISTA ESPÍRITA

6.1. GRAVIDADE E BENEVOLÊNCIA
Allan Kardec dá algumas instruções no trato com os Espíritos. Ele diz que tanto com Espíritos benevolentes como com Espíritos sofredores ou maus, é preciso gravidade, posto que temperada de benevolência. "É o melhor meio de lhes impor e os manter à distância, obrigando-os ao respeito. Se descerdes até a familiaridade com os que vos são inferiores, do ponto de vista moral e intelectual, não tardareis a dar entrada à sua influência perversa. Ficar de guarda. Variar vossa linguagem conforme a dos Espíritos que se comunicam". (Revista Espírita, 1865, p. 153)

6.2. ESCUTAR OS SEUS IGUAIS
Qual a utilidade do médium e do doutrinador encarnado? Por que os Espíritos desencarnados não escutam os conselhos de seus iguais do espaço e esperam os ensinamentos dos homens?
"Porque é necessário que os dois mundos visível e invisível, reajam um sobre o outro e que a ação dos humanos seja útil aos que viveram, como a ação da maior parte destes é benéfica aos que vivem entre vós. É uma dupla corrente, uma dupla ação, igualmente satisfatória para esses dois mundos, que estão unidos por tantos laços". (Revista Espírita, 1865, p. 207)

6.3. O CASO GERMAINE
“É uma das obsessões das mais graves, cujo caráter mudará muitas vezes de fisionomia. Agi friamente, com calma; observai, estudai e chameis Germaine”.
É uma dissertação longa. Um dos aspectos que nos chamou a atenção foi a de que antes de os médiuns intervirem, deixaram a família esgotar todos os meios disponíveis. "Só quando a impotência da ciência e da Igreja foi constatada é que induzimos o pai desesperado a vir assistir à nossa reunião para saber a verdadeira causa do mal de sua filha, e o remédio moral a ministrar-lhe". (Revista Espírita, 1865, p. 006)

7. CONCLUSÃO
Os Espíritos menos felizes pululam ao redor dos seres humanos. Muitos deles nem suspeitam do mal que fazem aos encarnados. Nesse caso, a tarefa do doutrinador é sumamente nobre, pois tem a oportunidade de alertá-los e convidá-los para uma tomada de consciência à luz da moral do Cristo.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Kardec, Allan. Revista Espírita de 1865.
MIRANDA, H. C. Diálogo com as Sombras (Teoria e Prática da Doutrinação). 3. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1982.


PS

Doutrina Espírita não lhe negues fidelidade



Toda crença é respeitável.
No entanto, se buscaste a Doutrina Espírita, não lhe negues fidelidade.

Toda religião é sublime.
No entanto, só a Doutrina Espírita consegue explicar-te os fenômenos mediúnicos em que toda religião se baseia.

Toda religião é santa nas intenções.
No entanto, só a Doutrina Espírita pode guiar-te na solução dos problemas do destino e da dor.

Toda religião auxilia.
No entanto, só a Doutrina Espírita é capaz de exonerar-te do pavor ilusório do inferno, que apenas subsiste na consciência culpada.

Toda religião é conforto na morte.
No entanto, só a Doutrina Espírita é suscetível de descerrar a continuidade da vida, além do sepulcro.

Toda religião apregoa o bem como preço do paraíso aos seus profitentes.
No entanto, só a Doutrina Espírita estabelece a caridade incondicional como simples dever.

Toda religião exorciza os Espíritos infelizes.
No entanto, só a Doutrina Espírita se dispõe a abraçá-los, como a doentes, neles reconhecendo as próprias criaturas humanas desencarnadas, em outras faixas de evolução.

Toda religião educa sempre.
No entanto, só a Doutrina Espírita é aquela em que se permite o livre exame, com o sentimento livre de compressões dogmáticas, para que a fé contemple a razão, face a face.

Toda religião fala de penas e recompensas.
No entanto, só a Doutrina Espírita elucida que todos colheremos conforme a plantação que tenhamos lançado à vida, sem qualquer privilégio na Justiça Divina.

Toda religião erguida em princípios nobres, mesmo as que vigem nos outros continentes, embora nos pareçam estranhas, guardam a essência cristã.
No entanto, só a Doutrina Espírita nos oferece a chave precisa para a verdadeira interpretação do Evangelho.

Porque a Doutrina Espírita é, em si, a liberalidade e o entendimento, há quem julgue seja ela obrigada a misturar-se com todas as aventuras marginais e com todos os exotismos, sob pena de fugir aos impositivos da fraternidade que veicula.

Dignifica, assim, a Doutrina que te consola e liberta, vigiando-lhe a pureza e a simplicidade, para que não colabores, sem perceber, nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento.

“Espírita” deve ser o teu caráter, ainda mesmo te sintas em reajuste, depois da queda.

“Espírita” deve ser a tua conduta, ainda mesmo que estejas em duras experiências.

“Espírita” deve ser o nome de teu nome, ainda mesmo respires em aflitivos combates contigo mesmo.

“Espírita” deve ser o claro adjetivo de tua instituição, ainda mesmo que, por isso, te faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres.

Doutrina Espírita quer dizer Doutrina do Cristo. E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos.
Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua responsabilidade mais alta, porque dia virá em que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas.

Religião dos Espíritos-Emmanuel-psicografia Chico Xavier
Reunião Pública de 13/11/1.959

                                                                


Allan Kardec
Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido pelo pseudônimo Allan Kardec, nasceu em 3 de outubro de 1804, em Lyon, França - Codificador da Doutrina Espírita

18 de Abril de 1.857 - 159 anos do lançamento do Livro dos Espíritos!
Dan


Eu não sou mais espírita! “Ex-espírita” será imaginável?












Há poucos dias, um reconhecido divulgador do Espiritismo, utilizou-se das redes sociais para confessar que “não era mais espírita”. Ouvimos suas razões pelo “you tube” e percebemos a sua ingenuidade, motivo pelo qual deliberamos comentar seu ato.  Todavia, antes de explanar sobre a deserção do propagandista insurgente e “ex-espírita”, asseguramos que não existe no dicionário kardequiano o termo “ex-espírita”. Até porque, uma vez ESPÍRITA, jamais serão desintegrados os ensinos revelados pelos Espíritos aos que foram racionalmente abrangidos. Portanto, os que se assumem “ex-espíritas” jamais foram ESPÍRITAS.
Em Obras Póstumas encontramos o artigo “Desertores”, nele aprendemos que “entre os ESPÍRITAS convictos, não há deserções, na lídima acepção do termo, visto como aquele que desertasse por motivo de interesse ou qualquer outro, nunca teria sido sinceramente ESPÍRITA; pode, entretanto, haver desânimos. Pode dar-se que a coragem e a perseverança fraqueiem diante de uma decepção, de uma ambição frustrada, de uma preeminência não alcançada, de uma ferida no amor-próprio, de uma prova difícil.” [1]
Se alguns “ex-espíritas” desertaram, aniquilando o ideal, admitindo extinguir a chama da Doutrina dos Espíritos sob qualquer pretexto, segundo as contingências históricas, podemos afiançar-lhes que o Espiritismo permanecerá despontando sucessivamente por meio de diversos instrumentos de desenvolvimento e expansão. Isto quer dizer que o Espiritismo prosseguirá sempre, conquanto alguns, às vezes, abandonem a luta ou retrocedam, devido às conveniências particularíssimas.
Digam o que disserem, ou façam o que fizerem ninguém será capaz de privar o Espiritismo do seu caráter revelador, da sua filosofia racional e lógica, da sua moral consoladora e regeneradora. Qualquer oposição é impotente contra a evidência, que inevitavelmente triunfa pela força mesma das coisas.
Muitos antagonistas de Kardec acreditavam que o Espiritismo se extinguiria por causa dos “espíritas” que se envolviam em desordem, arrogância ou deserção, onde centros espíritas se esvaziavam ou até fechavam as suas portas, entretanto os Espíritos não ficaram imóveis ou ociosos, ao contrário, solucionaram de maneira objetiva, provocando novos fenômenos e fatos transcendentes, a fim de manterem desperta as mentes humanas sob a pujante luz do Consolador Prometido.
É óbvio que alguém que verdadeiramente estuda e busca o aperfeiçoamento moral dentro dos ensinamentos do Espiritismo jamais (nunca mesmo!) será mental, intelectual e sentimentalmente   a mesma pessoa. O Espiritismo não impõe nada, pelo contrário, expõe!  Se é certo que todas as grandes ideias contam apóstolos fervorosos e dedicados, não menos certo é que mesmo as melhores dentre as ideias têm seus desertores. O Espiritismo não podia escapar aos efeitos da fraqueza humana.
Alguns “ex-espíritas” por algum tempo pregaram a união, semeando a separação; habilmente levantaram questões importunas e ferinas; despertaram o despeito da preponderância entre os diferentes grupos. Em verdade,  todas as doutrinas têm tido seu Judas; o Espiritismo não poderia deixar de ter os seus e eles ainda não lhe faltaram. Kardec chamava-os de “espíritas de contrabando”, mas que também foram de alguma utilidade: ensinaram ao verdadeiro ESPÍRITA a ser prudente circunspeto e a não se fiar nas aparências. Sem dúvida, podem os tais “ex-espíritas” terem sido crentes, mas, sem contestação, foram crentes egoístas, nos quais a fé racional não ateou o fogo sagrado do devotamento e da abnegação.
Aos que lutam com coragem e perseverança cujo devotamento é sincero e sem ideias preconcebidas os Bons Espíritos protegem manifestamente. É verdade! Os Bons Espíritos ajudam-nos a vencer os obstáculos e suavizam as provas que não possamos evitar-lhes, ao passo que, não menos manifestamente, abandonam os que desertam e sacrificam a causa da verdade às suas ambições pessoais e mesquinhas.
Quem sabe possamos também chamar de desertores os que pregam virtudes religiosas e sociais, acolhendo-se em trincheiras de usura, os que levantam casas de socorro, desviando recursos que deveriam ser aplicados para sanar as dores do próximo, as mães que, sem motivo, emudecem as trompas da vida no santuário do próprio corpo, embriagando-se de prazeres que vão estuar na loucura, os que passam as horas censurando atitudes de outrem, olvidando os deveres que lhes competem os que condenam e amaldiçoam, ao invés de compreender e abençoar, os que perderam a simplicidade e precisam de uma torre de marfim para viver.
Quando perpetramos a deserção voluntária dos nossos deveres, diante das leis que nos governam, decerto que imprimimos determinadas deformidades no corpo espiritual. Benfeitores da Vida Maior são unânimes em declarar que, em todas as ocasiões nas quais sejamos impulsionados a desertar das experiências a que Deus nos destinou na vida terrestre, devemos recorrer à oração, ao trabalho, aos métodos de autodefesa e a todos os meios possíveis da reta consciência, em auxílio de nossa fortaleza e tranquilidade, de modo a fugirmos do profundo poço da irrealização pessoal.
Jorge Hessen

PS


Quarto Enfermaria












Quarto  enfermaria. Doentes, preces sinceras.
Esses quartos já presenciaram adeuses e ósculos, mais sinceros do que um barco a zarpar.
É nesse quarto que você vê um homofóbico ser salvo por um médico gay.
A médica de classe social elevada salvando a vida de um mendigo.
Na UTI o judeu cuida do racista; Agente policial e recluso no mesmo quarto recebendo cuidados iguais.
O abastado na fila de transplante, o doador é pobre.
São nesses momentos que o “quarto enfermaria” toca a alma.
Vidas que se cruzam em propósito divino, e nesse compartilhamento da existência, nos dão conta que sozinhos não somos ninguém.
A fragilidade da alma humana, na maioria das vezes, só aparece na dor ou ameaça de perda.
Quando o mundo entenderá que somos todos iguais - Almas numa experiência humana.      

Espírito Anônimo – 25/08/2017 + ou – as 02h10min




PS

Na Fraternidade

Na Fraternidade

Na fraternidade amar e seguir o "Amai-vos uns aos outros" como Jesus ensinou deve ser o objetivo em nós mesmos.
Em fraternidade a alma e a inteligência é Deus em nós.
Na fraternidade espalhar caridade e paz é luz a iluminar o mundo em sombras.
Na fraternidade o encargo de conduzir é aspero e exige amor sem fronteiras.
Todavia, aqueles que abraçam a tarefa na fraternidade estarão em sintonia com os benfeitores celestes, a fim de implantar na Terra a doce e suave presença de Jesus.

                                                               José Grosso - Dan

O Espiritismo é uma religião?


Discurso de abertura pelo SR. ALLAN KARDEC
(Sociedade de Paris, 1º de novembro de 1868).








O Espiritismo é uma religião?

Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, aí estarei com elas.” (Mat. XVIII, 20).

Caros irmãos e irmãs espíritas,
Estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para dar aos nossos irmãos que deixaram a Terra, um testemunho particular de simpatia; para continuar as relações de afeição e de fraternidade que existiam entre eles e nós em vida, e para chamar sobre eles a bondade do Todo-Poderoso. Mas, por que nos reunirmos? Não podemos fazer, cada um em particular, o que nos propomos fazer em comum? Qual a utilidade que pode haver em se reunir assim num dia determinado?
Jesus no-lo indica pelas palavras citadas no alto. Essa utilidade está no resultado produzido pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre pessoas reunidas com o mesmo objetivo.
O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, um laço essencialmente moral que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não apenas o fato de compromissos materiais que podemos romper à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre as pessoas que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.
Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza.
Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; ele não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião pública se levantou.
Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.
As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que elas se ocupam. Pode-se mesmo, na ocasião, fazer preces que em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que por isto as tomem por assembleias religiosas. Não penseis que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão é devida à falta de um vocábulo para cada ideia.
Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória; qual o sentimento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos, ou, por outras palavras: o amor ao próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos também fazem parte da Humanidade.
A caridade é a alma do Espiritismo. Ela resume todos os deveres do homem para consigo mesmo e para com os seus semelhantes; eis por que podemos dizer que não há verdadeiro espírita sem caridade.
Mas a caridade é ainda uma dessas palavras de sentido múltiplo, cujo inteiro alcance deve ser bem compreendido, e se os Espíritos não cessam de pregá-la e defini-la, é que provavelmente eles reconhecem que isto ainda é necessário.
O campo da caridade é muito vasto. Ele compreende duas grandes divisões que, na falta de termos especiais, podemos designar pelas expressões: caridade beneficente caridade benevolente. Compreende-se facilmente a primeira, que é naturalmente proporcional aos recursos materiais de que se dispõe; mas a segunda está ao alcance de todos, tanto do mais pobre quanto do mais rico. Se a beneficência é forçosamente limitada, nada, além da vontade, poderia colocar limites à benevolência.
O que é preciso, então, para praticar a caridade benevolente? Amar ao próximo como a si mesmo: ora, se amarmos ao próximo como a nós mesmos, amá-lo-emos muito; agiremos para com os outros como gostaríamos que os outros agissem para conosco; não desejaremos nem faremos mal a ninguém, porque não gostaríamos que no-lo fizessem.
Amar ao próximo é, pois, abjurar todo sentimento de ódio, de animosidade, de rancor, de inveja, de ciúme, de vingança, numa palavra, todo desejo e todo pensamento de prejudicar; é perdoar aos seus inimigos e retribuir o mal com o bem; é ser indulgente para com as imperfeições de seus semelhantes e não procurar o cisco no olho do vizinho, quando não vemos a trave que temos no nosso; é cobrir ou desculpar as faltas dos outros, em vez de nos comprazermos em pô-las em relevo por espírito de maledicência; é, ainda, não nos fazermos valorizar à custa dos outros; não procurarmos esmagar a pessoa sob o peso de nossa superioridade; não desprezarmos ninguém por orgulho. Eis a verdadeira caridade benevolente, a caridade prática, sem a qual a caridade é palavra vã; é a caridade do verdadeiro espírita como do verdadeiro cristão, aquela sem a qual quem diz: Fora da caridade não há salvação, pronuncia sua própria condenação, tanto neste quanto no outro mundo.
Quanta coisa haveria a dizer a tal respeito! Quantas belas instruções nos dão os Espíritos incessantemente! Sem o receio de alongar-me e de abusar de vossa paciência, senhores, seria fácil demonstrar que, em se colocando no ponto de vista do interesse pessoal, egoísta, se preferirdes, porque nem todos os homens estão maduros para uma completa abnegação para fazer o bem unicamente por amor do bem, digo que seria fácil demonstrar que eles têm tudo a ganhar em agir deste modo e tudo a perder agindo diversamente, mesmo em suas relações sociais; depois, o bem atrai o bem e a proteção dos bons Espíritos; o mal atrai o mal e abre a porta à malevolência dos maus. Mais cedo ou mais tarde o orgulhoso será castigado pela humilhação, o ambicioso pelas decepções, o egoísta pela ruína de suas esperanças, o hipócrita pela vergonha de ser desmascarado. Aquele que abandona os bons Espíritos por estes é abandonado e de queda em queda se vê, por fim, no fundo do abismo, ao passo que os bons Espíritos erguem e amparam aquele que, nas maiores provações, não deixa de confiar na Providência e jamais se desvia do reto caminho, aquele, enfim, cujos secretos sentimentos não dissimulam nenhum pensamento oculto de vaidade ou de interesse pessoal. Então, de um lado, ganho assegurado; do outro, perda certa; cada um, em virtude de seu livre-arbítrio, pode escolher os riscos que quer correr, mas não poderá queixar-se senão de si mesmo pelas consequências de sua escolha.
Crer num Deus todo-poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente; na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos mais imperfeitos seres; na felicidade crescente com a perfeição; na equitável remuneração do bem e do mal, conforme o princípio: a cada um segundo as suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; na duração da expiação limitada pela da imperfeição; no livre-arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterna; aceitar corajosamente as provações, em vista do futuro mais desejável que o presente; praticar a caridade em pensamentos, palavras e obras na mais larga acepção da palavra; esforçar-se todos os dias para ser melhor que na véspera, extirpando alguma imperfeição de sua alma; submeter todas as crenças ao controle do livre exame e da razão e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da Ciência a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que pode congraçar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ele ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.
Com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz e se pouparão dos males inumeráveis que nascem da discórdia, por sua vez filha do orgulho, do egoísmo, da ambição, do ciúme e de todas as imperfeições da Humanidade.
O Espiritismo dá aos homens tudo o que é preciso para a felicidade aqui na Terra, porque lhes ensina a se contentarem com o que eles têm. Que os espíritas sejam, pois, os primeiros a aproveitar os benefícios que ele traz, e que inaugurem entre si o reino da harmonia que resplandecerá nas gerações futuras.
Os Espíritos que nos rodeiam aqui são inumeráveis, atraídos pelo objetivo que nos propusemos ao nos reunirmos, a fim de dar aos nossos pensamentos a força que nasce da união. Demos aos que nos são caros um boa lembrança e o penhor de nossa afeição, encorajamento e consolações aos que estão necessitados. Façamos de modo que cada um recolha a sua parte dos sentimentos de caridade benevolente de que estivermos animados, e que esta reunião produza os frutos que todos têm o direito de esperar.

ALLAN KARDEC.
Depois deste discurso, foi lida uma comunicação espontânea, ditada pelo Espírito do Sr. H. Dozon, em 1º de novembro de 1865, sobre a solenidade do dia de Todos os Santos, e que é lida todos os anos, na sessão comemorativa.

O Dia de Todos os Santos

A festa de Todos os Santos, meus bons amigos, é uma festa que, para a maior parte dos que não possuem a verdadeira fé, os entristece e lhes faz derramar lágrimas, em vez de se alegrarem. Observai que desde a humilde choupana até o palácio, quando o dobre a finados lembra o nome do esposo ou da esposa, de um pai, de uma mãe, de um filho, de uma filha, eles choram. Parece que tudo está acabado, que eles nada mais têm a esperar aqui embaixo, contudo, eles oram! Que é, então, essa prece? É um pensamento dirigido ao ser amado, mas sem esperança. O choro abafa a prece. Por quê? Ah! É que eles duvidam; eles não têm essa fé viva que infunde a esperança, que vos sustenta nas maiores lutas. É que eles não compreenderam que a vida na Terra não é senão uma separação momentânea; numa palavra é que aqueles que lhes ensinaram a orar não tinham, também eles, a fé verdadeira, a fé que se apoia na razão.
Mas é chegada a hora em que estas belas palavras do Cristo vão ser, enfim, compreendidas: “Meu pai deve ser adorado, não mais apenas nos templos, mas em toda parte, em espírito e em verdade.” Tempo virá em que elas se realizarão. Belas e sublimes palavras! Sim, meu Deus, não sois adorado apenas nos templos, mas sois adorado no monte e por toda parte. Sim, aquele que molhou os lábios na taça bendita do Espiritismo, ora não só neste dia, mas diariamente; o viajante ora em seu caminho, o operário durante o seu trabalho; aquele que pode dispor de seu tempo o emprega no alívio de seus irmãos que sofrem.
Meus irmãos, alegrai-vos, pois dentro de pouco tempo vereis grandes coisas! Quando eu estava na Terra, eu via a Doutrina grande e bela, mas eu estava bem longe de poder compreendê-la em toda a sua grandeza e em seu verdadeiro objetivo. Assim, vos direi: Redobrai de zelo; consolai os que sofrem, porque há seres que foram de tal modo afligidos durante a sua vida, que necessitam ser amparados e ajudados na luta. Sabeis quanto a caridade é agradável a Deus. Praticai-a, pois, sob todas as formas; praticai-a em nome dos Espíritos cuja memória festejais neste dia, e eles vos bendirão!
H. DOZON.

Depois das preces de costume (Ver a Revista Espírita de novembro de 1865), trinta e duas comunicações foram obtidas pelos médiuns presentes, em número de dezoito. Dada a impossibilidade de publicá-las todas, a Sociedade fez uma escolha das três seguintes, para serem anexadas ao discurso acima, cuja impressão ela pediu. As outras terão lugar nas coleções especiais que serão publicadas ulteriormente.
O grande Espírito Larochefoucauld disse, numa de suas obras, que deveríeis tremer diante da vida e diante da morte! Certamente, se deveis tremer, é por ver vossa existência incerta, perturbada, completamente falha; é por terdes realizado um trabalho estéril, inútil para vós e para outros; é por terdes sido um falso amigo, um mau irmão, um conselho pernicioso; é por serdes mau filho, pai irrefletido, cidadão injusto, desconhecedor de vossos deveres, de vosso país, das leis que vos regem, da sociedade e da solidariedade.
Quantos de meus amigos vi, Espíritos brilhantes, engenhosos, instruídos, muitas vezes faltarem ao objetivo profundo da vida! Eles construíam hipóteses mais ou menos absurdas: aqui a negação; ali, a fé ardente; além, se faziam neófitos deste ou daquele sistema de governo, de filosofia, e muitas vezes lançavam, ai de mim! suas belas inteligências num fosso, de onde elas não podiam mais sair senão feridas e enxovalhadas para sempre.
A vida, com suas asperezas, seus maus gostos e suas incertezas, é, entretanto, uma coisa bela! Como! Saís de um embrião, de um nada, e atraís em torno de vós os beijos, os cuidados, o amor, o devotamento, o trabalho, e isto não seria nada senão a vida! Como é, então, que para vós, seres fanados, sem força, sem linguagem, gerações inteiras criaram os campos incessantemente explorados da poupança humana? Poupança de saber, de Filosofia, de Mecânica, de Ciências diversas; milhares de cidadãos corajosos gastaram os seus corpos e dispuseram de suas vigílias para vos criar os mil elementos diversos de vossa civilização. Desde as primeiras letras até uma definição sábia, encontra-se tudo o que pode guiar e formar o espírito; hoje pode-se ver, porque tudo é luz. A sombra das idades sombrias desapareceu para sempre, e o adulto de dezesseis anos pode contemplar e admirar um nascer do sol e analisá-lo, pesar o ar e, com o auxílio da Química, da Física, da Mecânica e da Astronomia, criar mil gozos divinos. Com a pintura, ele reproduz uma paisagem; com a música, ele escreve algumas dessas harmonias que Deus espalha em profusão nas harmonias infinitas!
Com a vida, pode-se amar, dar, espalhar muito; por vezes pode-se ser sol e iluminar o seu interior, a sua família, as suas relações, ser útil, cumprir a sua missão. Oh! sim, a vida é uma coisa bela, fremente, cheia de fogo e de expansão, cheia de fraternidade e desses deslumbramentos que jogam as misérias para o último plano.
Ó vós todos, meus caros condiscípulos da Rua de Richelieu; vós, meus fiéis do 14; vós todos que tantas vezes interrogastes a existência vos perguntando a palavra do fim; a vós que baixais a cabeça, incertos ante a última hora, diante da palavra Morte, que significa para vós: vazio, separação, desagregação, a vós eu venho dizer: Erguei a cabeça e esperai, não mais fraqueza, não mais terror, porque se os vossos estudos conscienciosos e as religiões de nossos pais não vos deixaram senão desgosto da vida, incerteza e incredulidade, é que, estéril em tudo, a ciência humana mal conduzida só atingia o nada. Vós todos, que amais a Humanidade e resumis a esperança futura pelo estudo das ciências sociais, por sua aplicação séria, eu vos digo: Esperai, crede e procurai. Como eu, deixastes passar a verdade; nós a abandonávamos e ela batia à nossa porta, que obstinadamente lhe havíamos fechado. Daqui por diante amareis a vida, amareis a morte, essa grande consoladora, porque quereis, por uma vida exemplar, evitar um recomeço; querereis esperar no sólio da erraticidade todos aqueles que amais, não somente a vossa família, mas a geração inteira que guiastes, para lhes desejar as boas-vindas e a emigração para mundos superiores.
Vedes que vivo e todos nós vivemos. A reencarnação, que tanto nos fez rir, é o problema resolvido que tanto procuramos. Aí está esse problema em vossas mãos, cheio de atrativos, de promessas ardentes; vossos pais, vossas esposas, vossos filhos, a multidão de amigos vos querem responder; eles estão todos reunidos, esses caros desaparecidos aos vossos olhos; eles falarão ao vosso espírito, à vossa razão; eles vos revelarão verdades, e a fé é uma lei bem-amada; mas, interrogai-os com perseverança.
Ah! A morte nos causava medo e nós tremíamos! Entretanto, eis-me aqui, eu, Guillaumin, um incrédulo, um incerto, reconduzido à verdade. Milhares e milhares de Espíritos se apressam, esperam a vossa decisão; eles gostam da lembrança e da peregrinação pelos cemitérios! É uma baliza esse respeito aos mortos, mas esses mortos estão todos vivos. Em vez de urnas funerárias e de epitáfios mais ou menos verdadeiros, eles vos pedem uma troca de ideias, de conselhos, um suave comércio de espírito, essa comunidade de ideias que gera a coragem, a perseverança, a vontade, os atos de devotamento, e esse fortificante e consolador pensamento que a vida se retempera na morte e que podeis, de agora em diante, a despeito de Larochefoucauld e de outros grandes gênios, não tremer diante da vida nem diante da morte.
Deus é a exuberância, é a vida em tudo e sempre. Cabe a nós compreender sua sabedoria nas diversas fases pelas quais ele purifica a Humanidade.
GUILLAUMIN.
(Médium: Sr. Leymarie).

II

Escolher mal o meu momento foi sempre uma das mi­nhas inabilidades contínuas, e vir neste dia, em meio a esta numerosa reunião de Espíritos e de encarnados, é muito realmente um ato de audácia de que só a minha timidez pode ser capaz. Mas vejo em vós tanta bondade, doçura e amenidade; sinto tão bem que em cada um de vós posso encontrar um coração amigo, compassivo, e sendo a indulgência a menor das qualidades que animam os vossos corações, malgrado a minha audácia, não me perturbo e conservo toda a presença de espírito que por vezes me falta, em circunstâncias menos imponentes.
Mas, perguntareis, o que vem fazer, então, com sua verbiagem insinuante, esse desconhecido que em lugar de um instrutor vem monopolizar um médium útil? Quanto ao presente tendes razão. Assim, apresso-me em dar a conhecer o meu desígnio, para não me apropriar por muito tempo de um lugar que usurpo.
Numa passagem do discurso hoje pronunciado por vosso presidente, uma reflexão vibrou-me ao ouvido, como só uma verdade pode vibrar e, confundido na multidão de Espíritos atentos, de súbito pus-me a descoberto. Ainda fui severamente julgado por uma porção de Espíritos que, baseando-se em suas recordações e na reputação de uma apreciação trazida de outros tempos, subitamente reconheceram em mim o misantropo selvagem, o urso da civilização, o austero crítico das instituições em desacordo com seu próprio raciocínio. Ai de mim! Como um erro faz sofrer e há quanto tempo dura o mal praticado contra as massas pela tola pretensão de um orgulhoso da humildade, de um louco do sentimento!
Sim, tendes razão: o isolamento em matéria religiosa e social não pode engendrar senão o egoísmo e, sem que muitas vezes dele se dê conta, o homem se torna misantropo, deixando o seu egoísmo dominá-lo. O recolhimento produzi­do pelo efeito do silêncio grandioso da Natureza falando à alma é útil, mas a sua utilidade não pode produzir seus frutos senão quando o ser que ouve a Natureza falar à sua alma, relata aos homens a verdade da sua moral. Mas se aquele que sente, em face da criação, sua alma se voar para as regiões de uma era pura e virtuosa, não se serve de suas sensações, ao despertar, no meio das instituições de sua época, senão para censurar os abusos que sua natureza sensitiva lhe exagera, porque ela sofre com isto, se ele não encontra, para endireitar os erros dos humanos, senão fel e ressentimento, sem lhes mostrar docemente o verda­deiro caminho, tal qual o descobriu na própria Natureza, oh! então, infeliz dele, se não se servir de sua inteligência senão para açoitar, em vez de cuidar das feridas da Sociedade!
Sim, tendes razão: viver só no meio da Natureza é ser egoísta e ladrão, porque o homem foi criado para a sociabi­lidade; e isto é tão verdadeiro que eu, o selvagem, o misantropo, o intratável eremita, venho aplaudir esta passagem do discurso aqui pronunciado: O isolamento social e religioso conduz ao egoísmo.
Uni-vos, pois, nos esforços e nas ideias; sobretudo, amai. Sede bons, suaves, humanos; dai à amizade o sentimento da fraternidade; pregai pelo exemplo dos vossos atos, os salutares efeitos de vossas crenças filosóficas; sede espíritas de fato e não somente de nome, e em breve os loucos do meu gênero, os utopistas do bem, não terão mais necessidade de gemer sobre os defeitos de uma legis­lação sob a qual eles devem viver, porque o Espiritismo, compreendido e sobretudo praticado, reformará tudo, para vantagem dos homens.
J. J. ROUSSEAU.
(Médium: Sr. Morin)


III

O perfume que exala de todos os bons sentimentos é uma prece constante que se eleva para Deus, e todas as boas ações são ações de graça ao Eterno.

SRA. VICTOR HUGO.

O devotamento pelo reconhecimento é um impulso do coração; o devotamento pelo amor é um impulso da alma.
SRA. DAUBAN.

O reconhecimento é um benefício que recompensa aquele que o merece. A gratidão é um ato do coração que dá, ao mesmo tempo, o prazer do bem àquele a quem se deve ser reconhecido, e àquele que o é.
VÉZY.

A ingratidão é punida como ação má pelo abandono de que é objeto, como a gratidão é recompensada pela alegria que proporciona.
LECLERC.

O dever da mulher é trazer ao homem todas as consolações e os encorajamentos necessários à sua vida de vicissitudes e penosos trabalhos. A mulher deve ser seu sustentáculo, seu guia, o facho que ilumina o seu caminho, e deve impedi-lo de falir. Se ela faltar à sua missão, será punida, mas se, malgrado o seu devotamento, o homem repele os impulsos de seu coração, ela é duplamente recompensada por haver persistido no cumprimento de seus deveres.
DELPHINE DE GIRARDIN.

A dúvida é o veneno lento que a alma faz a matéria absorver e da qual recebe o primeiro castigo. A dúvida é o suicídio da alma, que traz infalivelmente a morte do corpo. Uma alma suicidar-se é difícil de compreender. Mas não é morrer o viver na sombra, quando se sente a luz em volta de si? Afastai, pois, do vosso Espírito, o véu que encobre os esplendores da vida, e vede esses sóis radiosos que vos dão o dia: aí está a verdadeira luz; aí está o objetivo a que deveis chegar pela fé.
JOBARD.

O egoísmo é a paralisação de todos os bons sentimentos. O egoísmo é a deformidade da alma, que traspassa a matéria, fazendo-vos amar tudo o que a ela se dirige e repelir tudo o que se dirige aos outros. O egoísmo é a negação da sublime sentença do Cristo, sentença invertida ignominiosamente: “Fazei aos outros o que gostaríeis que eles vos fizessem.”
PLÁCIDO.

A susceptibilidade, eis um defeito para uso de todos, e cada um, não ides dizer o contrário, dele está um pouco carregado. Ufa! Se soubésseis quanto é ridículo ser suscetível e quanto esse defeito torna desajeitado, eu vos asseguro que ninguém mais desejaria ser por ele atingido, porque se gosta de ser belo.
GAY.

O orgulho é o guarda-chuva social de todos e que cada um arroja sobre o gracioso amor-próprio; certamente é preciso ter amor-próprio e orgulho, é o que dá a ambição do bem (sem jogo de palavras), mas demasiado, estraga o espírito e corrompe o coração.

MANGIN.

A ambição, ele acaba de dizer, mas sabeis qual a ambição que não impede a alma de elevar-se para os esplendores do infinito? Pois bem! É a que vos induz a fazer o bem. Todas as outras ambições vos levam ao orgulho e ao egoísmo, flagelos da Humanidade.

BONNEFON.

Meus caros amigos, os Espíritos que vos vêm falar, não só estavam felizes por manifestar sua presença, mas têm a alegria de pensar que cada um de vós esforçar-se-á para se corrigir e pôr em prática as sábias lições que vos deram e as que vos trazem em cada uma de vossas sessões. Crede, os Espíritos são para vós o que vossos pais foram ou deveriam ter sido. Eles repreendem quando vos aconselham e vos ajudam, e enquanto não os escutais, dizem que vos abandonam; revoltam-se contra vós, e logo depois de vos terem falado duramente, voltam vos encorajando e se esforçando para impelir constantemente os vossos pensamentos para o bem. Sim, os Espíritos vos amam como o bom pai ama a seus filhos; eles vos têm piedade, cuidam de vossos dias e afastam de vós todo mal que vos pode acontecer, como a mãe cerca o filho de todos os cuidados mais delicados, de todas as atenções necessárias à sua fragilidade. Deus lhes deu essa missão; deu-lhes a coragem para cumpri-la e nenhum desses bons Espíritos, seja qual for o seu grau na hierarquia espiritual, falhará na sua tarefa. Eles compreendem, sentem, veem esses esplendores divinos que devem ser a sua recompensa; eles vão adiante e desejariam levar-vos atrás deles, impelir-vos adiante deles, se o pudessem. Eis por que vos repreendem; eis por que vos aconselham. Por vossa vez, orai por eles, para que a vossa indocilidade não os impeça de continuar prodigalizando-vos seus benefícios, e que Deus continue a lhes dar a força de vos ajudar.
SÃO LUÍS.
(Médium: Sr. Bertrand).

Publicado na Revista Espírita de dezembro de 1.868.


PS