Os 500 da Galiléia

Depois do Calvário, verificadas as primeiras manifestações de Jesus no cenáculo singelo de Jerusalém, apossara-se de todos os amigos sinceros do Messias uma saudade imensa de sua palavra e de seu convívio.
A maioria deles se apegava aos discípulos, como querendo reter as últimas expressões de sua mensagem carinhosa e imortal. O ambiente era um repositório vasto de adoráveis recordações. Os que eram agraciados com as visões do Mestre se sentiam transbordardes das mais puras alegrias. Os companheiros inseparáveis e íntimos se entretinham em longos comentários sobre as suas reminiscências inapagáveis.
Foi nesse instante, de indizível grandiosidade, que a figura do Cristo assomou no cume iluminado pelos derradeiros raios do Sol. Era Ele. Seu sorriso desabrochava tão meigo como ao tempo glorioso de suas primeiras pregações, mas de todo o seu vulto se irradiava luz tão intensa que os mais fortes dobraram os joelhos. Alguns soluçavam de júbilo, presas das emoções mais belas de sua vida. As mãos do Mestre tomaram a atitude de quem abençoava, enquanto um divino silêncio parecia penetrar a alma das coisas. A palavra articulada não tomou parte naquele banquete de luz imaterial; todos, porém, lhe perceberam a amorosa despedida e, no mais íntimo da alma, lhe ouviram a exortação magnânima e profunda:
 — "Amados — a cada um se afigurou escutar na câmara secreta do coração —, eis que retomo a vida em meu Pai para regressar à luz do meu Reino!... Enviei meus discípulos como ovelhas ao meio de lobos e vos recomendo que lhes sigais os passos no escabroso caminho. Depois deles, é a vós que confio a tarefa sublime da redenção pelas verdades do Evangelho. Eles serão os semeadores, vós sereis o fermento divino. Instituo-vos os primeiros trabalhadores, os herdeiros iniciais dos bens divinos. Para entrardes na posse do tesouro celestial, muita vez experimentareis o martírio da cruz e o fel da ingratidão. .. Em conflito permanente com o mundo, estareis na Terra, fora de suas leis implacáveis e egoístas, até que as bases do meu Reino de concórdia e justiça se estabeleçam no espírito das criaturas.
 Negai-vos a vós mesmos, como neguei a minha própria vontade na execução dos desígnios de Deus, e tomai a vossa cruz para seguir-me. "Séculos de luta vos esperam na estrada universal. É preciso imunizar o coração contra todos os enganos da vida transitória, para a soberana grandeza da vida imortal. Vossas sendas estarão repletas de fantasmas de aniquilamento e de visões de morte. O mundo inteiro se levantará contra vós, em obediência espontânea às forças tenebrosas do mal, que ainda lhe dominam as fronteiras. Sereis escarnecidos e aparentemente desamparados; a dor vos assolará as esperanças mais caras; andareis esquecidos na Terra, em supremo abandono do coração.Não participareis do venenoso banquete das posses materiais, sofrereis a perseguição e o terror, tereis o coração coberto de cicatrizes e de ultrajes. A chaga é o vosso sinal, a coroa de espinhos o vosso símbolo, a cruz o recurso ditoso da redenção. Vossa voz será a do deserto, provocando, muitas vezes, o escárnio e a negação da parte dos que dominam na carne perecível. "Mas, no desenrolar das batalhas incruentas do coração, quando todos os horizontes estiverem abafados pelas sombras da crueldade, dar-vos-ei da minha paz, que representa a água viva.
Na existência ou na morte do corpo, estareis unidos ao meu Reino. O mundo vos cobrirá de golpes terríveis e destruidores, mas, de cada uma das vossas feridas, retirarei o trigo luminoso para os celeiros infinitos da graça, destinados ao sustento das mais ínfimas criaturas!... Até que o meu Reino se estabeleça na Terra, não conhecereis o amor no mundo; eu, no entanto, encherei a vossa solidão com a minha assistência incessante. Gozarei em vós, como gozareis em mim, o júbilo celeste da execução fiel dos desígnios de Deus. Quando tombardes, sob as arremetidas dos homens ainda pobres e infelizes, eu vos levantarei no silêncio do caminho, com as minhas mãos dedicadas ao vosso bem.
Sereis a união onde houver separatividade, sacrifício onde existir o falso gozo, claridade onde campearem as trevas, porto amigo, edificio na rocha da fé viva, onde pairarem as sombras da desorientação. Sereis meu refúgio nas igrejas mais estranhas da Terra, minha esperança entre as loucuras humanas minha verdade onde se perturbar a ciência incompleta do mundo!... "Amados, eis que também vos envio como ovelhas aos caminhos obscuros e ásperos. Entretanto, nada temais! Sede fiéis ao meu coração, como vos sou fiel, e o bom ânimo representará a vossa estrela! Ide ao mundo, onde teremos de vencer o mal! Aperfeiçoemos a nossa escola milenária, para que aí seja interpretada e posta em prática a lei de amor do Nosso Pai, em obediência feliz à sua vontade augusta!"
Sagrada emoção senhoreara-se das almas em êxtase de ventura. Foi então que observaram o Mestre, rodeado de luz, como a elevar-se ao céu, em demanda de sua gloriosa esfera do Infinito. Os primeiros astros da noite brilhavam no alto, como flores radiosas do Paraíso. No monte galileu, cinco centenas de corações palpitavam, arrebatados por intraduzível júbilo. Velhos trêmulos e encarquilhados desceram a costa, unidos uns aos outros, como solidários, para sempre no mesmo trabalho de grandeza imperecível. Anciãs de passo vacilante, coroadas pela neve das experiências da vida, abraçavam-se às filhas e netas, jovens e ditosas, tomadas de indefinível embriaguez dalma.
Os antigos discípulos, cercando a figura de Simão Pedro, choravam de contentamento e esperança. Naquela noite de imperecível recordação, foi confiado aos quinhentos da Galiléia o serviço glorioso da evangelização das coletividades terrestres, sob a inspiração de Jesus-Cristo. Mal sabiam eles, na sua mísera condição humana, que a palavra do Mestre alcançaria os séculos do porvir. E foi assim que, representando o fermento renovador do mundo, eles reencarnaram em todos os tempos, nos mais diversos climas religiosos e políticos do planeta, ensinando a verdade e abrindo novos caminhos de luz, através dos bastidores eternos do Tempo.
Foram eles os primeiros a transmitir a sagrada vibração de coragem e confiança aos que tombaram nos campos do martírio, semeando a fé no coração pervertido das criaturas. Nos circos da vaidade humana, nas fogueiras e nos suplícios, ensinaram a lição de Jesus, com resignado heroísmo. Nas artes e nas ciências, plantaram concepções novas de desprendimento do mundo e de belezas do céu e, no seio das mais variadas religiões da Terra, continuam revelando o desejo do Cristo, que é de união e de amor, de fraternidade e concórdia.
Na qualidade de discípulos sinceros e bem-amados, desceram aos abismos mais tenebrosos, redimindo o mal com os seus sacrifícios purificadores, convertendo, com as luzes do Evangelho, à corrente da redenção, os espíritos mais empedernidos. Abandonados e desprotegidos na Terra, eles passam, edificando no silêncio as magnificências do Reino de Deus, nos países dos corações e, multiplicando as notas de seu cântico de glória por entre os que se constituem instrumentos sinceros do bem com Jesus Cristo, formam a caravana sublime que nunca se dissolverá.

 Humberto de Campos (Espírito)

Quem me segue não anda em trevas



“Quem me segue não anda em trevas...” — prometeu-nos o Eterno Amigo.
Se avanças, assim, em companhia do Mestre, sob o nevoeiro do mundo, muitas vezes serás interpelado pela sombra, através daqueles que te palmilham a senda.
Em plena estrada, dir-te-á pelo rebelde!
- Perdão é covardia.
O ódio alimenta.
Incendeia o caminho.
Oprime e passa.
Dir-te-á pelo ambicioso:
— Não cogites dos meios para alcançar os fins.
Dar é tolice.
O interesse acima de tudo.
Mais vale um vintém na Terra que um tesouro nos Céus.
Exclamará para os teus ouvidos pela boca dos viciosos:
— Nada além da carne.
Come e bebe.
Goza o dia.
Embriaga-te e esquece.
Exortar-te-á pelo usurário:
— Não desdenhes a bolsa farta.
Serviço é privilégio da ignorância.
Migalha bem furtada, riqueza justa.
Ajuda a ti mesmo, antes que os outros te desajudem.
Dir-te-á pelo pessimista:
— Nada mais a fazer.
Que te importa o destino?
Não vale a pena...
Tudo é ilusão.
Exortar-te-á pelos filhos do orgulho:
— Jamais te humilhes.
O mundo é teu.
Nada além de ti mesmo.
Vence e domina.
Em teu santuário de serviço, dir-te-á pelo chefe:
— Não reclames.
Obedece e cala-te.
Estou fatigado...
Não me perturbes.
Pela voz do subordinado, gritará, inquietante:
— Não te aproximes.
Não te suporto.
Pagar-me-ás a injustiça.
Maldito sejas.
E acentuará pela boca do companheiro:
— Desaparece.
Não me aborreças.
Estou farto.
A culpa é tua...
Em casa, dir-te-á pelos mais amados:
— És a nossa vergonha.
Enlouqueceste...
Que fizeste de nós?
Não passas de um fraco...
Mas, no imo d’alma, escutarás a palavra do Senhor, na acústica do coração:
— Brilhe tua luz.
Ama sem exigência.
Serve a todos.
Ampara indistintamente.
Não desesperes.
Tem bom ânimo.
Ora pelos adversários.
Ajuda a quem te calunia.
Perdoa setenta vezes sete.
A quem te pedir a túnica, oferece também a capa.
Ao que te pedir a jornada de mil passos, caminha com ele dois mil.
Renúncia é conquista.
A dor é bênção.
Sacrifício é glória.
O trabalho é superação.
A luta é pão da vida.
A cruz é triunfo.
A morte é ressurreição.
Se souberes ouvir o Celeste Orientador, aprenderás servindo e servirás amando...
E, reconhecendo a tua condição de simples viajante no mundo, usarás, cada dia, a bússola da bondade e da fé, no divino silêncio, nutrindo a certeza de que aportarás, amanhã, sob a inspiração de Jesus, na grande praia da verdade, onde encontrarás, enfim, a tua Vitória Eterna.
Espírito Dalva de Assis
chico xavier

Comunicação de Kardec



Extraído  do Reformador (FEB) 1949

Médium: Zilda Gama

Data : Agosto de 1913

Trecho de uma comunicação publicada

integralmente no livro “Diário dos Invisíveis”(Ed. Pensamento), em 1929.

            Afirmo, agora, baseado nas verdades transcendentes, que Jesus, o Emissário divino, foi o Ente mais evoluído, da mais alta estirpe sideral que já baixou à Terra, em cumprimento de uma incumbência direta do Pai Celestial, e, portanto, o que houve de anormalidade em sua existência não foi uma seleção parcial feita por Deus, mas uma justa homenagem que lhe era devida ao próprio mérito.
            Nós, distanciados como estamos de sua perfectibilidade, não gozamos das mesmas regalias ou prerrogativas que lhe foram outorgadas, mas podemos adquiri-las, em séculos e milênios de dedicação, labor, esforço próprio, prática de todas as virtudes. Era, pois, Jesus, já naquela época - a do início do Cristianismo - uma personalidade superior, que, para bem desempenhar sua missão planetária, teve de tecer suas vestes tangíveis, com as quais ofuscou o brilho de sua alma radiosa, constituída de eflúvios cósmicos, que se solidificaram, que se aderiram ao mediador plástico, dando-lhe a aparência de materialidade, mas que podiam ser dissolvidos ao influxo de sua vontade.
                                                                     Allan Kardec

Nota: Reflexão para o achismo daqueles que afirmam que Chico Xavier foi Kardec.
Colaborador dan

Crescimento e Queda

Por que as religiões perdem qualidade, quando crescem quantativamente? O fenômeno é relativamente fácil de explicar: é um misto de vaidade humana com a falta do conhecimento verdadeiramente cristão. Inexpressiva do ponto de vista numérico, qualquer religião obriga seus líderes a uma maior vigilância para que ela não se autodestrua em sua fragilidade, além disso, a pequena quantidade de adeptos não excita a vaidade. Quando crescem, surgem as preocupações com a administração, arrecadação de fundos, aquisição de computadores, geralmente faustosos, com eleições, com o poder... A disputa hierárquica se estabelece e os "representantes" do Poder Divino aparecem. A ocupação do espaço pela "autoridade" substitui o sentimento de simplicidade evangélica e o orgulho pessoal se manifesta. Num mundo viciado como o nosso, os adeptos de todas as crenças, de uma forma geral, admiram o poder, aplaudem os que aparecem, porque também não têm consciência mais profunda do exato sentido dos princípios trazidos por Jesus Cristo. Quanto mais vaidoso, mais inseguro é o ser humano, necessitando do reconhecimento público, dos elogios, do comando para se realizar em suas fraquezas. Por isso, só o tíbio e o insensato lutam por cargos e se desesperam para mantê-los. O movimento espírita, em muitas instituições, passa por essa fase. Chapas diversas disputam diretorias, nos moldes deprimentes da política mundana. Há médiuns que "recebem" mensagens induzindo a escolha, identificando os protegidos de "Bezerra", "Emmanuel", Ismael" e, até mesmo, de "Jesus". Querem o direito de decisão, por se sentirem "salvadores de almas" e "enviados do alto". Há, ainda, os que invocam encarnações passadas, para justificarem suas pretensões. Muitos desses "messias" se consideram o retorno de Paulo, de Lutero, de Kardec etc., numa comprovação tácita da obsessão. Deveriam lembrar-se de Bias, o notável cidadão de Priena, ao responder aqueles que estranhavam o seu desapego dos bens materiais e do destaque social: "Eu trago tudo dentro de mim". Os verdadeiros líderes, que contam com o apoio de elevados benfeitores, são aqueles que ocupam cargos sem ambicioná-los, trabalham por amor e estudam com humildade. Não são arrogantes nem pretensiosos. Servem e passam, distribuindo sem contar o que dão. Não ofendem os companheiros nem os princípios imáculos da Doutrina. Eles são identificados pela nobreza do caráter, pela permanente dedicação e pela simpatia que tipificam o equilíbrio necessário a qualquer nível de liderança.

Revista O Espírita

Os desafios de evangelizar

O Evangelizador nunca estará solitário!
 

Nos últimos anos, parece-nos que o interesse das crianças e jovens pela evangelização tem diminuído, ocorrendo um esvaziamento das salas de evangelização nas casas espíritas. Algumas razões dessa falta de interesse podem ser conhecidas pelas casas espíritas, outras nem tanto, mas não é nosso objetivo, neste texto, enumerá-las, por que teríamos de considerar a realidade de cada uma das casas espíritas. O nosso objetivo é expor uma opinião, com base em nossa vivência na tarefa da evangelização, para que possamos repensar como evangelizar.  
A evangelização, denominada por muitos de Moral Cristã, inclusive por nós em determinado período de nossa prática, deve ser entendida no sentido mais próximo da definição do termo evangelizar, que é o de pregar, ensinar o Evangelho, de cristianizar-se. Consequentemente, o evangelizador só pode ser aquele que evangeliza, o que nos torna contrários à definição adotada por alguns que optam por utilizar educador, monitor, etc. em vez de evangelizador, termos esses usados em escolas ou segmentos afins. A tarefa do evangelizador é mais ampla, pois, a exemplo do Cristo, lhe cabe a tarefa de aprender a amar e, em alguns casos, ensinar a amar.
O nosso desafio hoje nas salas de evangelização é o de enfrentar uma geração nova que desde a primeira idade está acostumada à velocidade das informações, aos produtos descartáveis, ao uso de tecnologia, o que a torna uma geração que perde rapidamente o interesse por atividades, pelo caráter plural que adquiriram, pois são capazes de, ao mesmo tempo, ouvir um MP4, assistir à TV e fazer lição de casa.
O grande problema, em nossa opinião, é que continuamos agindo em nossas atividades de evangelização como agíamos com as gerações anteriores, o que nos torna evangelizadores não muito atrativos para esse grupo de crianças e jovens que busca resultados imediatos e, quando não alcançados, destimula-se com facilidade.
A evangelização deve buscar uma nova metodologia para abordar os conteúdos cristãos, aliando-os às questões atuais do mundo contemporâneo, de modo que a criança e o jovem participantes da evangelização possam estabelecer essa relação e enriquecer e/ou modificar o seu espírito com os ensinamentos que lhes são transmitidos.
Nesse sentido, de posse de uma metodologia para evangelização, cabe ao evangelizador ser o agente transformador, que terá de aliar os novos métodos de evangelizar ao principal objetivo da evangelização: transmitir a boa nova para, à luz dos ensinamentos do Cristo, transformar a si próprio e a criança que lhe foi confiada na tarefa de evangelização.     
O aprendizado com afetividade, aliado ao conhecimento, em qualquer área, é capaz de transformar, e na evangelização, sobretudo, o evangelizador e a criança devem estar em constante troca afetiva e em constante troca de conhecimentos, de modo que o aprendizado para ambos seja profícuo.
Ainda não temos um método ou receita para superar os desafios de evangelizar, mas se acreditarmos e exercitarmos verdadeiramente aquilo que pregamos, transmitirmos esses ensinamentos de modo afetivo, buscando formas mais lúdicas e dinâmicas que atendam, ainda que de maneira tímida, à dinâmica mental de nossas crianças, poderemos não solucionar os problemas da evangelização, mas certamente um dos primeiros desafios que é o de levar a boa nova a essa nova geração começará a ser superado. Ao evangelizador, mesmo que solitário, cabe essa tarefa.

O Semeador do Bem

Descobrimos, em nossas leituras, este texto do fascinante escritor Oscar Wilde.     
Nestes dias de sombra e dor, assim com nós, é possível que tenha chorado também o Semeador.

“Era noite e Ele estava só.
Percebeu, à distância, as muralhas de uma grande cidade e para ela se dirigiu. E quando se aproximou, ouviu dentro da cidade o tropel dos folguedos, o alarido da alegria e o ruído ensurdecedor de muitos alaúdes. E Ele bateu no portão e os guardas o abriram.
E Ele viu uma casa de mármore, com belas colunas de mármore à sua frente. As colunas estavam adornadas de guirlandas, e quer fora, quer no interior, ardiam tochas de cedro. Ele entrou na casa.
E quando cruzou o vestíbulo de calcedônia, o de jaspe e atingiu o salão dos festins, viu estendido sobre um leito de púrpura marinha um homem cujos cabelos estavam coroados de rosas vermelhas e os lábios rubros manchados de vinho. E ele aproximou-se por trás, tocou-lhes as costas, dizendo-lhe:
- Por que viveis assim?
O jovem, voltando-se, reconheceu-O e respondeu-Lhe:
Eu era leproso e vós me curastes. Como iria viver?
Ele deixou a casa e voltou à rua. Pouco depois viu uma mulher cujo rosto e trajes eram coloridos e cujos pés estavam recamados de pérolas. Atrás dela, cauteloso como um caçador, caminhava um jovem usando uma túnica de duas cores. O rosto da mulher era tão belo como o rosto de um ídolo e os olhos do jovem faiscavam de sensualidade.
Ele, rapidamente, seguiu o jovem, e tocando-lhe na mão, indagou:
- Por que olhais para essa mulher de tal maneira?
O jovem, voltando-se, reconheceu-O e retrucou-lhe:
- eu era cego e vós me restituístes a vista. A quem mais eu poderia olhar?
Ele correu adiante e tocando no vestido colorido da mulher, perguntou-lhe:
- Não há outro caminho para trilhardes que não seja o do pecado?
A mulher voltou-se e, reconhecendo-O, replicou-Lhe:
- Vós perdoastes os meus pecados e este é um caminho agradável.
Ele, então, afastou-se da cidade. E quando a deixara, deparou-se à beira da estrada com um jovem chorando. Aproximou-se, e tocando nas longas madeixas dos seus cabelos, perguntou-lhe:
- Por que chorais?
O jovem ergueu os olhos. Reconhecendo-O, respondeu-Lhe:
- Eu estava morto e vós me ressuscitastes. Que farei agora senão chorar?"

Oscar Wilde

No mundo...

No mundo, muitas vezes, terás o coração cercado:

de adversários gratuitos;
de críticas indébitas;
de acusações sem sentido;
de pensamentos contraditórios;
de pedras da incompreensão;
de espinhos do sarcasmo;
de ataques e desentendimentos;
de complicações que não fizeste;
de tentações e problemas;
da noite da culpa;
da sombra da obsessão;
do labirinto das provas;
do cárcere do egoísmo;
da toca da ignorância;
do nevoeiro da angústia;
das nuvens do sofrimento;
da neblina das lágrimas;

Entretanto, guarda a serenidade e prossegue agindo na extensão do bem. Relaciona os recintos onde as necessidades da alma te obscurecem os caminhos e estende auxílio e compreensão onde estiveres, e em torno de ti mesmo.
Disse-nos Cristo: “Sois a luz do mundo”.
E toda a criatura é uma fonte de luz por ser, em si, uma fonte de amor.
Querido irmão, ilumina onde estejas e tua própria luz dissipará as trevas que ameaçam obscurecer-te a alegria de viver.
Muita Paz,
Fabiano

Os inimigos estão "condenados" a serem amigos para sempre

Há no frescor da juventude o mel da alegria de se encontrar o amor. Busca-se o amor na companheira ou companheiro que nossa alma,  destarte a nossa vaidade, pulsa e esse pulsar, na maioria das vezes, nos vedam a razão e, em nome do amor que buscamos na Terra, enveredamos por caminhos difíceis de caminhar... e caminhamos e nos deparamos com o tempo, com a infelicidade, com a decepção, a dor e acabamos nos embocando nos poços profundos do ódio. E esse ódio reverberá quiçá por longos e longos tempos, fazendo-nos esquecer das palavras sublimes de nosso Senhor Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros”.
E  foi através desse esquecimento que me vi envolvida numa de minhas jornadas terrenas, em triste passagem que até hoje, quando as recordo, sinto as cicatrizes chagosas a arderem nas profundezas dos sentimentos. E nessa vibração aguda relato, com a permissão dos amigos espirituais, que permitiram, a título de aprendizado, a minha simples e despretensiosa narrativa. (Norma de Cássia Angélica)

Nota: Em razão do espaço reservado para o blog, apresentamos, a seguir, um resumo da narrativa de Norma, desencarnada em 1942):   

Era o ano  de 1942. Filha de pais bondosos e zelosos, com 18 primaveras, Norma de Cássia Angélica residia na cidade das Hortências. A jovem iria se casar. No caminho para a igrejinha, a jovem admirava o seu vestido tão branco e rendado que o pai mandara confeccionar no Rio de Janeiro e as flores em forma de tiara que adornavam os seus cabelos. O coração da jovem batia descompassadamente até a chegada do altar nupcial. O noivo, porém, ainda não havia chegado. A jovem Norma olhava todos no salão da igreja e via olhares de comiseração e piedade. Após algum tempo, a plenos pulmões, gritou: Fernando!!!
Sentiu a presença de seu pai e ouviu as palavras que lhe pareceram açoites: “Ele não veio – já estamos à sua espera há duas horas. Ele não vem, você tem que ter coragem.” Ali, a jovem  Norma perdeu os sentidos.
Acordou na simples e modesta casa, ao redor de amigos a consolá-la. Após longo silêncio, um choro convulsivo e amargo aflorou no seu semblante. E a voz da profecia amarga saltou de seus lábios: “Deus, em teu nome juro a minha vingança, a dor que senti nada irá apagar. Fernando, um dia qualquer nos encontraremos e aí você verá o peso do meu ódio.” Lentamente, a jovem foi arrancando as flores que enfileiravam a sua tiara, amassando-as e projetando-as com raiva. Somente o vestido foi poupado.
Alguns dias depois, a jovem, amargurada, soube que no dia em que havia sido deixada no altar um respeitável senhor havia sido cruelmente assassinado, mas a polícia não conseguira prender o assassino. Condoída, a jovem foi visitar a família, vítima da brutal tragédia.
Ao chegar  a casa, a jovem se deparou com um rapaz e uma senhora cujas faces eram só tristeza. O rapaz, cheio de rancor, disse: “O maldito vai me pagar. Vou matá-lo. Irei encontrá-lo um dia.”
E assim, alimentando-se de ódio e da cólera, os jovens Norma e Arnaldo  passaram a tarde recordando os infortúnios que os havia atingido e a amizade entre eles ficava fortalecida e aumentava o ódio que não os permitia esquecer.
Um dia, Norma recebeu uma carta de Fernando, que tentava explicar e reparar a falta cometida no dia do casamento. Nessa carta, Fernando confessa à Norma que não foi ao casamento porque havia matado um homem, fato que o obrigou a fugir. Deu seu endereço à Norma e pediu que lhe encontrasse, no estado de Goiás.
No dia seguinte, Norma conta a Arnaldo o ocorrido e lhe confessa que o assassino de seu pai era seu noivo Fernando. Ambos decidiram embarcar para Goiás, em busca da vingança. Norma preparou-se para viagem e na sua bagagem levava a mortífera arma do ódio.
Chegando ao local do encontro, Norma deixou se abraçar por Fernando e lentamente o dirigiu até a cama. Nesse momento, deu-lhe um empurrão e bradou entre lágrimas: “Miserável, sabe o que você me fez passar? Não, você não sabe...” e esbofeteou-lhe o rosto.
Fernando partiu em direção à Norma, quando Arnaldo entrou empunhando um revólver  e disse: “Para trás canalha, hoje é o teu dia. Eu me chamo o teu fim, sou o filho do Ribeiro que você matou.”
Fernando empalideceu e compreendeu a armadilha que Norma lhe havia armado.
Houve um primeiro estampido, no segundo Fernando cambaleou e caiu de bruços sobre a cama. Aquietou-se por algum tempo, mas repentinamente virou-se com uma arma na mão e dispara. A bala acerta em cheio Arnaldo no coração e Norma, ao tentar correr, sentiu o metal quente entrar em suas têmporas. O silêncio agora era brutal.
Norma tentou se levantar e fugir. Os dois continuaram uma violenta luta corporal até que todos, extenuados, se sentaram ofegantes...
De repente uma claridade imensa tomou conta do quarto e adentrou uma figura maravilhosamente linda. Só poderia ser “Jesus” – pensou Norma, era como sua mãe descrevera. A figura os olhou com compaixão e disse: “Filhos, que fizestes da vida que teu Pai lhes deu? Vocês nasceram para se amarem... o que vocês fizeram? Preparem-se para novo recomeço, pois renascereis daqui a alguns anos. Norma como esposa de Arnaldo e desse casamento nascerá um filho, Fernando. Talvez aí vocês compreenderão que a vida é, acima de tudo, perdão.”
Quando a figura estava se retirando, Norma, em pranto, lhe perguntou: “quem és”? Virando-se sereno e calmo, espalmou as mãos e exclamou: “Em verdade, em verdade vos digo, Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo.”
O quarto ficou numa penumbra assustadora e os três começaram a chorar, com medo, medo da escuridão que haviam se envolvido.
"Juvenal, ô Juvenal, chama o rabecão".  – Essas foram as últimas palavras que Norma ouviu.   

“Talvez alguns achem minha história um tanto inverossímel, mas ouçam: perdoem, perdoem, pois um dia, de uma forma ou de outra, todos irão debutar.
Perdoai, perdoai enquanto há tempo... perdão, pois os inimigos estão “condenados” a serem amigos para sempre”.
Norma de Cássia Angélica, desencarnada em 1942, a espera de reencarnar para, com Jesus, exercitar o perdão.

Nota: Essa narativa foi recebida pelo médium D.A.N, em 1994, e encenada a peça teatral, em abril do mesmo ano, pelos integrantes da MIL – Mocidade Irmão Lauro. Até hoje não se tem notícias se Norma, Arnaldo e Fernando tenham reencarnado.
                      

O cristão verdadeiro vive do equilíbrio

O cristão verdadeiro vive do equilíbrio
Fabiano de Castella









A natureza nos dá exemplos de equilíbrio em sua organização, exceto quando há interferência da vaidade humana, que a leva ao desequilíbrio. O corpo humano é possivelmente proporcional, no equilíbrio de formas, como desejou Leonardo da Vinci em seu Homem Vitruviano.  Nota-se, entretanto, em todos os tempos, o desequilíbrio das criaturas pelas mais diversas causas: o uso inadequado do corpo, o desamor, a falta de fé, os maus pensamentos, o excesso de vaidade e tantas outras razões que poderíamos enumerar, contrariando a nossa natureza, que deve ser a do equilíbrio.
Buscar esse equilíbrio não tem sido tarefa fácil. Manter a mente sã e o corpo são requer de cada um de nós, a cada dia, força interior para suportar nossas provas e para não recrudescermos diante delas e de tal modo que as nossas perturbações espirituais possam influenciar a matéria.     
O espiritismo, entretanto, nos orienta, no Evangelho Segundo o Espiritismo: as relações que existem entre o corpo e a alma, por se acharem em dependência mútua, importa cuidar de ambos. Amai, pois, a vossa alma, porém, cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela. Desatender as necessidades que a própria Natureza indica, é desatender a lei de Deus. Não castigueis o corpo pelas faltas que o vosso livre-arbítrio o induziu a cometer e pelas quais é ele tão responsável quanto o cavalo mal dirigido, pelos acidentes que causa.
O espírito Fabiano nos alerta: “O cristão verdadeiro vive do equilíbrio”. É necessário, portanto, que cuidemos do nosso corpo, ponderemos nossas ações, vigiemos nossos pensamentos, colocando-os na balança de nossa alma, para que encontremos o ponto de equilíbrio daquilo que somos e daquilo que desejamos ser, para que não soframos solidão ou desajuste, como nos ensinou um companheiro espiritual.
Jesus, no Sermão da Montanha, disse aos discípulos: “Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? Para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens.” Ouçamos a palavra do Cristo, porque nós somos também o sal da terra, e o sal, em equilíbrio, é importante agente na natureza. Nós também somos um agente de transformação do mundo e de nós mesmos.
Trabalhemos com equilíbrio, oremos com equilíbrio, sejamos humildes com o equilíbrio, orgulhosos com equilíbrio, como orienta Fabiano, em prece proferida na Colônia Espiritual Alvorada* ao companheiro desencarnado, que ocupava a Enfermaria XII, orientação esta que também cabe a nós, tão necessitados de equilíbrio e de ajustes, em tão conturbada esfera dentro de nós mesmos:
   
Querido irmão desta colônia
Muita Paz

Guarda-te do mal, contudo pratique o Bem.
Esconde-te das paixões, todavia desenvolve as possibilidades que já possues por menores que sejam.
Oculta -te  dos maus pensamentos, porém não deixes de emitir pensamentos superiores em benefício de teu próximo e de ti mesmo.
Apaga-te diante dos grandes, mas não impeças que a verdade, mesmo com sacrifício de teus interesses, se espalhe no mundo.
Não te exaltes o bastante de modo que venham a zombar de ti, nem te humilhes tanto, de tal forma, que venham te desprezar.
O Cristão verdadeiro vive do equilíbrio e faz de uma vida fraterna e caridosa sua fortaleza.
Segue Jesus em tudo o que te for possível, até o fim de teus dias e viverás em planos mais altos da espiritualidade.
A esfera superior começa no mundo, dentro de ti mesmo.
Muita Paz.

*Nota: Segundo informações espirituais, trata-se de Colônia Espiritual plasmada, geograficamente, nas proximidades de Matão, cidade do interior de São Paulo. A Enfermaria XII trata-se de um dos leitos ocupado por irmão desencarnado, que aguarda recuperação.  

O Grupo Lauro


Grupo Lauro iniciou-se por volta de 1960, em uma sala do Edifício Copam, quando funcionava como uma secretaria do Oscal ( Organização Social Cristã André Luiz). Nessa época, o militar Lauro Siqueira, já desencarnado, comunicou-se em algumas reuniões através de uma médium e, por essa razão, Lauro Siqueira foi escolhido como mentor espiritual da casa. Em 23 de novembro de 1963 foi fundado, de fato, o Grupo da Fraternidade Irmão Lauro, nas bases do ideal do amor e do compromisso com a doutrina espírita, seguindo as orientações de espíritos com grande tarefa na fraternidade como Scheilla, José Grosso, Fritz Shein, Palminha, Ilka, Joseph Gleber e outros. Nessa época, o movimento da fraternidade era frequentado por personalidades como o ator Sérgio Cardoso, a escritora Ligia Fagundes Telles, o jornalista Assis Chateubriand, Laudo Natel, entre outros.
Na década de 1970, o casal Glauco e Maria Parente doaram um terreno, no bairro  Parque Bristol, onde se iniciou a construção da atual sede do Grupo Lauro, onde encontra-se a sua pedra fundamental. O Grupo da Fraternidade Irmão Lauro deverá sempre seguir seu estatuto, o sonho de fraternidade, os ditames espirituais que sempre farão dele esse facho de imensa luz registrado na espiritualidade.