Em Prece

Senhor, Jesus.
Atingíramos a reunião da noite de 27 de setembro de 1956, marcada pelos nossos instrutores para fixar o término da segunda série de mensagens psicofônicas recolhidas em nosso grupo e destinadas constituição do presente livro. 
Outras tarefas chamar-nos-iam a atenção.
Aguardavam-nos outras atividades, outros setores.
Estávamos, por essa razão, intensamente emocionados, quando Emmanuel, o nosso devotado orientador, tomou a palavra e orou comovidamente.

A sua prece tocante assinalava a conclusão das páginas faladas que integrariam o novo tomo de instruções obtidas em nosso santuário de serviço espiritual.
E foi por isso que, em se fazendo de novo o silêncio, tínhamos lágrimas nos olhos e todos dizíamos, através do verbo inarticulado, de coração alçado ao Céu: — Benfeitores da Luz Divina, Deus vos recompense a tolerância e a bondade!... Preces queridas de nosso templo, ficai conosco! Mensagens de amor e luz, ide ao mundo consolando e instruindo! Noites abençoadas, adeus! adeus!..

Com a nossa jubilosa gratidão pela assistência de todos os minutos - humildes servos daqueles servidores que te sabem realmente servir, aqui te ofertamos o nosso louvor singelo, a que se aliam as nossas súplicas incessantes.
No campo de atividade em que nos situas, por acréscimo de confiança e misericórdia,faze-nos sentir que todos os patrimônios da vida te pertencem, a fim de que a ilusão não nos ensombre o roteiro.
Mostra-nos, senhor, que nada possuímos além das nossas necessidades de regeneração, para que aprendamos a cooperar contigo, em nosso próprio favor.
E, na ação a que nos convocas, ilumina-nos o passo para que não estejamos distraídos.
Que a nossa humildade não seja orgulho.
Que o nosso amor não seja egoísmo.
Que a nossa fé não seja discórdia.
Que a nossa justiça não seja violência.
Que a nossa coragem não seja temeridade.
Que a nossa segurança não seja preguiça.
Que a nossa simplicidade não seja aparência.
Que a nossa caridade não seja interesse.
Que a nossa paz não seja frio enregelante.
Que a nossa verdade não seja fogo destruidor.
Em torno de nós, Mestre, alonga-se, infinito, o campo do bem, a tua gloriosa vinha de luz, em que te consagras com os homens, pelos homens e para os homens à construção do reino de Deus.
Dá-nos o privilégio de lutar e sofrer em tua causa e ensina-nos a conquistar, pelo suor da cada dia, o dom da fidelidade, com o qual estejamos em comunhão contigo em todos os momentos de nossa vida.
Assim seja.


Vozes do Grande Além-Emmanuel/Chico Xavier
Analdo Rocha

Reunião de Pais - Exposição de Jairo de Paula

Jairo de Paula
O Depto. Infantil convida os pais e responsáveis dos alunos da Evangelização, para a Exposição de Jairo de Paula com o tema: "Os seus, os meus os nossos filhos – uma oportunidade de afeto para recomeçar".



 Local: Salão principal
 Data: 04/10/2014 (Sábado)

 Programação: Abertura (13h30)
 Exposição do tema com Jairo de Paula (14h40)
 Coffe Break  (15h40)
 Encerramento (16h00)




  • Escritor - autor de 15 livros, entre eles os best-sellers "Uma Marca Chamada VOCÊ" e "INCLUSÃO - mais do que um desafio escolar, um desafio SOCIAL";
  • Professor e conferencista internacional;
  • Doutorando em Psicanálise;
  • Mestre em Educação e Psicanálise;
  • Pós-Graduado em marketing empresarial e psicopedagogia;
  • Graduado em Economia;
  • Especialista em ‘Artes Cênicas’ e ‘Musicoterapia’;
  • Treinador em Executive Coaching, pela Sociedade Brasileira de COACHING;
  • Membro da “Academia Brasileira Maçônica de Letras - Cadeira 33”;
  • 2008 - "Prêmio Darcy Ribeiro - (Parceria: Undime/SP – Rede Globo de Televisão);
  • 2011 - "Prêmio Benemérito Educacional PROFª. GILDECINA BEZERRA” - Palestrante do ANO - 2011;
  • Além de escritor, Jairo de Paula tem uma intensa atividade como palestrante nas áreas empresarial, educacional e familiar. Apontado pelo meio empresarial e educacional como um dos melhores palestrantes do Brasil que brilham no palco. Proferiu mais de 7.500 palestras, para um público aproximado de 1,5 milhão de pessoas, e apresenta, em suas palestras, uma série de informações práticas sobre o fascinante e desejado mundo da felicidade e sucesso em seus relacionamentos pessoais e profissionais;
  • Pesquisador em “Gestão do Capital Intelectual” e “Programas de Integração FAMILIA X ESCOLA”;




GB

O Evangelho da Perdição

  
Edgar Morin
A perda da salvação, a aventura desconhecida

Se houvesse navegadores do espaço, sua rota no aglomerado de 
Viagem ignoraria a muito marginal Via Láctea e passaria longe do 
pequeno sol periférico que tem em sua órbita o minúsculo planeta 
Terra. Como Robinson em sua ilha, pusemo-nos a enviar sinais em 
direção às estrelas, até agora em vão, e talvez em vão para 
sempre. Estamos perdidos no cosmos.

Esse cosmos formidável está ele próprio votado à perdição. Ele nasceu, portanto é mortal. Dispersa-se a uma velocidade espantosa, enquanto astros se chocam, explodem, implodem. Nosso Sol, que sucede a dois ou três outros sóis defuntos, se consumirá. Todos os seres vivos são lançados na vida sem o terem pedido, estão prometidos à morte sem o terem desejado. Vivem entre nada e nada, o nada de antes, o nada de depois, cercados de nada durante. Não são apenas os indivíduos que estão perdidos, mas, cedo ou tarde, a humanidade, depois os últimos vestígios de vida, finalmente a Terra. O próprio mundo vai em direção à morte, seja por dispersão generalizada ou por retomo implosivo à origem... Da morte deste mundo um outro mundo nascerá talvez, mas o nosso estará irremediavelmente morto. Nosso mundo está votado à perdição. Estamos perdidos.
Este mundo que é o nosso é muito frágil na base, quase inconsistente: nasceu de um acidente, talvez de uma desintegração do infinito, a menos que consideremos que surgiu do nada. De qualquer modo, a matéria conhecida não é senão uma ínfima parte da realidade material do universo, e a matéria organizada não é senão uma ínfima parte dessa ínfima parte. São as organizações entre entidades materiais, átomos, moléculas, astros, seres vivos, que adquirem consistência e realidade para nossos espíritos; são as emergências que surgem dessas organizações, a vida, a consciência, a beleza, o amor, que, para nós, têm valor: mas essas emergências são perecíveis, fugazes, como a flor que desabrocha, o brilho de um rosto, o tempo de um amor...
A vida, a consciência, o amor, a verdade, a beleza são efêmeros. Essas emergências maravilhosas supõem organizações de organizações, oportunidades inusitadas, e elas correm a todo instante riscos mortais. Para nós, elas são fundamentais, mas elas não têm fundamento. Nada tem fundamento absoluto, tudo procede em última ou primeira instância do sem-nome, do sem-forma. Tudo nasce da circunstância, e tudo o que nasce está prometido à morte.
E vejam: as últimas emergências, os últimos produtos do devir, a consciência, o amor, devem ser reconhecidos como primeiras normas e primeiras leis.
Mas eles não adquirirão a perfeição nem a inalterabilidade. O amor e a consciência morrerão. Nada escapará à morte. Não há salvação no sentido das religiões de salvação que prometem a imortalidade pessoal. Não há salvação terrestre, como prometeu a religião comunista, ou seja, uma solução social em que a vida de cada um e de todos se veria livre da infelicidade, do acaso, da tragédia. É preciso renunciar radical e definitivamente a essa salvação.
 Precisamos também renunciar às promessas infinitas. O humanismo ocidental nos votava a conquista da natureza, ao infinito. A lei do progresso nos dizia que este devia ser perseguido sem descanso e sem fim. Não havia limite ao crescimento econômico, à inteligência humana, à razão. O homem havia se tornado para si mesmo seu próprio infinito. Podemos hoje rejeitar esses falsos infinitos e tomar consciência de nossa irremediável finitude. Como diz Gadamer, é preciso “deixar de pensar a finitude como a limitação na qual nosso querer-ser infinito fracassa, (mas) conhecer a finitude positivamente como a verdadeira lei fundamental do dasein”. O verdadeiro infinito está além da razão, da inteligibilidade, dos poderes do homem. Será que ele nos atravessa de lado a lado, totalmente invisível, e se deixa apenas pressentir por poesia e música?
Ao mesmo tempo que a consciência da finitude, podemos doravante ter uma consciência de nossa inconsciência e um conhecimento de nossa ignorância: podemos saber doravante que estamos na aventura desconhecida. Acreditamos, confiando numa pseudociência, que conhecíamos o sentido da história humana. Mas, desde a aurora da humanidade, desde a aurora dos tempos históricos, estávamos já numa aventura desconhecida, e nela estamos mais que nunca. O curso seguido pela história da era planetária saiu da órbita do tempo reiterativo das civilizações tradicionais para entrar num devir cada vez mais incerto.
Estamos votados à incerteza que as religiões de salvação, inclusive a terrestre, acreditaram ter eliminado: “Os bolcheviques não queriam ou não podiam compreender que o homem é um ser frágil e incerto, que realiza uma obra incerta num mundo incerto”.
(D. Tchossitch, Le Temps du mal, I, Paris. L'Age d'Homme, 1990, p.186)
Precisamos compreender que a existência no mundo físico (e a do próprio mundo físico) se paga a um preço extraordinário de degradação, de perda, de ruína, que a existência viva se paga a um preço extraordinário de sofrimento, que toda alegria, toda felicidade humanas se fazem pagar e se farão pagar pela degradação, a perda, a ruína e o sofrimento.
 Estamos na itinerância. Não marchamos por um caminho demarcado, não somos mais teleguiados pela lei do progresso, não temos nem messias nem salvação, caminhamos na noite e na neblina Mas não se trata de errância ao acaso, ainda que haja acaso e errância; podemos ter também idéias-guias, valores eleitos, uma estratégia que se enriquece ao modificar-se. Não se trata apenas de uma marcha para o abatedouro. Somos movidos por nossas aspirações, podemos dispor de vontade e de coragem. A itinerância se alimenta de esperança. Mas é uma esperança privada de recompensa final; ela navega no oceano da desesperança.
A itinerância está votada a este mundo, isto é, ao destino terrestre. Mas contém ao mesmo tempo uma busca do mais além. Não do “mais além” fora do mundo, mas do “mais além” do hic et nunc, do “mais além” da miséria e da infelicidade, do “mais além” desconhecido próprio justamente da aventura desconhecida.
É na itinerância que se inscreve o ato vivido. A itinerância implica a revalorização dos momentos autênticos, poéticos, extáticos da existência, e igualmente - já que todo objetivo atingido nos lança num novo caminho e toda solução inaugura um novo problema - uma desvalorização relativa das idéias de objetivo e de solução. A itinerância pode plenamente viver o tempo não apenas como continuum que liga passado/presente/futuro, mas como retorno às fontes (passado), ato (presente) e possibilidade (tensão voltada ao futuro).
Estamos na aventura desconhecida. A insatisfação que faz recomeçar a itinerância jamais poderia ser saciada por esta. Devemos assumir a incerteza e a inquietude, devemos assumir o dasein, fato de estar aí sem saber por quê. Cada vez mais haverá fontes de angústia e cada vez mais haverá necessidade de participação, de fervor, de fraternidade, os únicos que sabem, não aniquilar, mas rechaçar a angústia. O amor é o antídoto, a réplica - não a resposta - à angústia. É a experiência fundamentalmente positiva do ser humano, em que a comunhão, a exaltação de si, do outro, são levadas ao seu melhor, quando não se alteraram pela possessividade. Será que não se poderia degelar a enorme quantidade de amor petrificado em religiões e abstrações, votá-lo não mais ao imortal, mas ao mortal?
 A boa-má nova
 Mas, mesmo assim, a perdição permanecerá inscrita em nosso destino.
Eis a má nova: estamos perdidos, irremediavelmente perdidos. Se há um evangelho, isto é, uma boa nova, esta deve partir da má: estamos perdidos mas temos um teto, uma casa no planeta onde a vida criou seu jardim, onde os humanos formaram seu lar, onde doravante a humanidade deve reconhecer sua casa comum.
Não é a Terra prometida, não é o paraíso terrestre. É nossa pátria, o lugar de nossa comunidade de destino de vida e morte terrestres. Devemos cultivar nosso jardim terrestre o que quer dizer civilizar a Terra. O evangelho dos homens perdidos e da Terra-Pátria nos diz: sejamos irmãos, não porque seremos salvos, mas porque estamos perdidos.(Na verdade, a idéia de salvação nascida da recusa da perdição trazia em si a consciência recalcada da perdição. Toda religião de vida após a morte trazia em si, recalcada, a consciência da irreparabilidade da morte.)
  Sejamos irmãos, para viver autenticamente nossa comunidade de destino de vida e morte terrestres. Sejamos irmãos, porque somos solidários uns dos outros na aventura desconhecida.
Como dizia Albert Cohen: “Que esta espantosa aventura dos humanos que chegam, riem, se mexem, depois subitamente param de se mexer, que esta catástrofe que os espera não nos faça ternos e compassivos uns para com aos outros, isto é inacreditável”.(O vous, frères humains, Paris, Gallimard, 1972.)
 Ela não é nova, a má nova: desde a emergência do espírito humano, houve tomada de consciência da perdição, mas essa tomada de consciência foi abafada pela crença na sobrevivência e pela esperança da salvação. Todavia, cada um é secretamente acompanhado pela idéia da perdição, cada um a carrega consigo em profundidades maiores ou menores. Ela não é nova, a boa nova: o evangelho dos homens perdidos regenera a mensagem de compaixão e comiseração pelo sofrimento do príncipe Sakyamuni e o sermão da montanha de Jesus de Nazaré, mas, no cerne da boa nova, não há nem salvação por salvaguarda/ressurreição do eu, nem libertação por desaparecimento do eu.
 O apelo da fraternidade
 O apelo da fraternidade não se encerra numa raça, numa classe, numa elite, numa nação. Procede daqueles que, onde estiverem, o ouvem dentro de si mesmos, e dirige-se a todos e a cada um. Em toda parte, em todas as classes, em todas as nações, há seres de “boa vontade” que veiculam essa mensagem. Talvez eles sejam mais numerosos entre os inquietos, os curiosos, os abertos, os temos, os mestiços, os bastardos e outros intermediários.
O apelo à fraternidade não deve apenas atravessar a viscosidade e a impermeabilidade da indiferença. Deve superar a inimizade. A existência de um inimigo mantém ao mesmo tempo nossa barbárie e a dele. O inimigo é produzido por cegueira às vezes unilateral, mas que se torna recíproca quando respondemos com uma inimizade que nos torna igualmente hostis. É verdade que os egocentrismos e os etnocentrismos, que suscitaram e não cessam de suscitar inimigos, são estruturas inalteráveis da individualidade e da subjetividade (E. Morin, La Méthodet. 2, La Vie de la Vie, op. cit, p. 164-173), mas, assim como essa estrutura comporta um princípio de exclusão no eu, ela comporta um princípio de inclusão num nós, e o problema chave da realização da humanidade é ampliar o nós, abraçar, na relação matri-patriótica terrestre, todo ego altere reconhecer nele um alter ego, isto é, um irmão humano.
Precisamos superar a repulsa diante do que não se conforma às nossas normas e aos nossos tabus, e superar a inimizade contra o estrangeiro, sobre o qual projetamos nossos temores do desconhecido e do estranho; isso requer um esforço recíproco que venha desse estrangeiro, mas é preciso que alguém comece...
Há o inimigo que matou, violou, torturou. Mas não podemos excluí-lo da espécie humana, e não podemos nos fechar à possibilidade do arrependimento. A concepção complexa da multipersonaÍidade nos ensina que há várias pessoas num único indivíduo, e que não podemos encerrar esse indivíduo em sua pessoa criminal. Definir um ser humano como criminoso, dizia Hegel, é suprimir-lhe todos os seus outros traços humanos que não são criminosos. Ninguém pode ser condenado para sempre. A magnanimidade, o arrependimento e o perdão nos indicam a possibilidade de deter o círculo vicioso da vendeta, da punição, da vingança - nossa contra o inimigo e do inimigo contra nós. Precisamos deter a máquina infernal permanente que fabrica sem parar e em toda parte crueldade com crueldade. Também aqui não esperemos resolver esses problemas de forma paradisíaca, mas saibamos lutar contra o horror uma vez que, como vimos, uma das finalidades planetárias profundas é a resistência contra a crueldade do mundo. (Sabemos também que a grande dificuldade é poder viver sem bode expiatório. O bode expiatório está profundamente ancorado não apenas em nossa animalidade, mas também em nossa humanidade, alimentado pelos tormentos, as preocupações e as angústias propriamente humanos).
 Habitar a Terra. Viver por viver.
 Somos habitantes da terra.
Citamos Hölderlin e completamos sua frase dizendo: prosaicamente e poeticamente, o homem habita a Terra. Prosaicamente (trabalhando, visando objetivos práticos, procurando sobreviver) e poeticamente (cantando, sonhando, gozando e amando, admirando), habitamos a Terra.
A vida humana é tecida de prosa e de poesia. A poesia não é apenas uma variedade de literatura, é também um modo de viver na participação, o amor, o fervor, a comunhão, a exaltação, o rito, a festa, a embriaguez, a dança, o canto, que efetivamente transfiguram a vida prosaica feita de tarefas práticas, utilitárias, técnicas. De resto, todo ser humano fala duas linguagens a partir de sua língua. A primeira denota, objetiviza, funda-se na lógica do terceiro excluído; a segunda fala antes através da conotação, isto é, o halo de significações contextuais que cerca cada palavra ou enunciado, joga com a analogia e a metáfora, tenta traduzir as emoções e os sentimentos, permite à alma exprimir-se. Do mesmo modo, há em nós dois estados freqüentemente separados, o estado primeiro ou prosaico, que corresponde às atividades racionais/empíricas, e o estado justamente dito “segundo”, que é o estado poético, mas também a música, a dança, a festa, a alegria, o amor, e que culmina em êxtase.
       É no estado poético que o estado segundo torna-se primeiro.
Fernando Pessoa dizia que em cada um de nós há dois seres: o primeiro, o verdadeiro, é o de seus devaneios, de seus sonhos, que nasce na infância e prossegue por toda a vida, e o segundo, o falso, é o de seus aparências, de seus discursos e de seus atos. Diremos de outro modo: dois seres coexistem dentro de nós, o do estado prosaico e o do estado poético; esses dois seres constituem nosso ser, são suas duas polaridades, necessárias uma à outra: se não houvesse prosa, não haveria poesia: o estado poético só se manifesta como tal em relação ao estado prosaico.
O estado prosaico nos coloca em situação utilitária e funcional e sua finalidade é utilitária e funcional.
O estado poético pode estar ligado a finalidades amorosas ou de fraternidade, mas é também em si mesmo seu próprio fim.
Os dois estados podem se opor, se justapor ou se misturar. Nas sociedades arcaicas, havia interações estreitas entre ambos: o trabalho cotidiano, a preparação da farinha no almofariz, por exemplo, era acompanhado de cantos e escandido por ritmos; os preparativos para a caça ou a guerra se faziam por ritos miméticos que comportavam cantos e danças. As civilizações tradicionais viviam da alternância entre as festas, momentos de suspensão dos tabus, de exaltação, de desperdício, de embriaguez, de consumo, e a vida cotidiana, submetida às coerções, votada à frugalidade e à parcimônia.
A civilização ocidental moderna separou prosa e poesia. Rarefez e em parte esvaziou as festas em proveito do lazer, noção-sacola que cada um preenche como puder. A vida de trabalho e a vida econômica foram invadidas pela prosa (lógica do ganho da rentabilidad,e etc.(Há evidentemente, na vontade de riqueza e de lucro, no exercício do comando de empresa, nos riscos do jogo da Bolsa, nas aventuras da estratégia, fontes de volúpia poética, da qual se valem capitalistas e empresários...); a poesia refugiou-se na vida privada, de lazer e de férias e teve seus desenvolvimentos próprios com os amores, os jogos, os esportes, os filmes e, evidentemente, a literatura e a poesia propriamente ditas.
(Houve duas revoltas históricas da poesia literária contra a vida prosaica, utilitária, burguesa. A primeira, no início do século XIX, foi o romantismo, especialmente em sua origem alemã. A segunda foi o surrealismo, que manifestou como o romantismo, mas de maneira mais explícita, ’a recusa da poesia de se deixar encerrar numa pura e simples expressão literária, e sobretudo a vontade de se encarnar na vida. O surrealismo quis levar adiante o empreendimento de desprosaização da vida cotidiana iniciado por Arthur Rimbaud, para revelar o maravilhoso no cotidiano aparentemente mais sórdido ou mais banal.)
 Hoje, neste fim de milênio, a hiperprosa se estendeu, com a invasão da lógica da máquina artificial em todos os setores da vida, a hipertrofia do mundo tecnoburocrático, o alastramento do tempo cronometrizado, sobrecarregado e estressado em deterimento do tempo natural de cada um. A traição e a derrocada da esperança poética do triunfo universal da fraternidade espalhou um grande lençol de prosa sobre o mundo. E, enquanto em toda parte, sobre as ruínas da promessa poética de mudar a vida, os retornos às fontes étnicos e religiosos se esforçam por regenerar as poesias da participação comunitária, a prosa do econocratismo e do tecnocratismo, que reduz a política à gestão, triunfa no mundo ocidental, certamente por algum tempo, mas o tempo deste presente. Ora, mesmo que a política não deva mais assumir o sonho de eliminar a prosa do mundo realizando a felicidade na Terra, ela não deve se encerrar no prosaico. Vale dizer que a política do homem não tem por objetivo apenas “a sociedade industrial evoluída”,“a sociedade pós-industrial” ou “o progresso técnico”. A política do desenvolvimento, no sentido em que a entendemos, e que comporta dentro dela a idéia de meta-desenvolvimento, requer a plena consciência das necessidades poéticas do ser humano.
Nessas condições, a invasão da hiperprosa requer uma contra-ofensiva poderosa de poesia, que por sua vez iria de par com o renascimento fraternitário e o aparecimento do evangelho da perdição.
Com efeito, a tomada de consciência da Terra-Pátria pode por si mesma nos colocar em estado poético. A relação com a terra é estética e, mais ainda, amorosa, às vezes extática. Como não vacilar de êxtase quando de repente uma enorme lua surge com assombro no horizonte da noite que nasce? Como não chegar quase a desfalecer ao contemplar o vôo das andorinhas? Serão apenas maravilhosas máquinas voadoras, gritam unicamente para se comunicar alguma informação? Não terão uma volúpia, uma embriaguez louca em dar viravoltas, mergulhar até o chão, subir de novo ao céu, roçar-se mutuamente sem jamais se tocar?
 É vão, repetimos, sonhar com um estado poético permanente que, de resto, se cansaria de si próprio ou se tornaria selvagem se fosse ininterrupto. Isso seria ressuscitar de outra forma as ilusões da salvação terrestre. Estamos condenados à complementaridade e à alternância poesia/prosa.
Temos necessidade vital de prosa, já que as atividades práticas prosaicas nos fazem sobreviver. Mas com freqüência, no reino animal, as atividades do sobreviver (buscar o alimento, a presa, defender-se contra os perigos, as agressões) devoram o viver, isto é, o gozar. Hoje, na Terra, os humanos passam grande parte de seu viver a sobreviver.
Precisamos trabalhar para que o estado segundo se torne primeiro. É preciso tentar viver não apenas para sobreviver, mas também para viver. Viver poeticamente é viver por viver.
 O evangelho da perdição
 O evangelho de fraternidade é para a ética o que a complexidade é para o pensamento: ele apela a não mais fracionar, separar, mas ligar, ele é intrinsecamente re-ligioso, no sentido literal do termo.
Religioso? Como não ficar embaraçado e incerto diante desta palavra? Ela está ligada a demasiados conteúdos divinos que lhe parecem consubstanciais, mesmo se a tomarmos em seu sentido mínimo: re-ligar.
De fato, a religião, no sentido ordinário do termo, se define em termos opostos aos do evangelho da perdição: uma fé em deuses ou num deus supremo, com cultos e ritos de veneração. A religião de salvação promete, além disso, uma vida gloriosa após a morte.
Na verdade, a religião com deus(es) é uma religião do primeiro tipo. A Europa moderna viu surgir religiões sem deuses que se ignoravam como tais e que podemos chamar religiões do segundo tipo. Assim, o Estado-nação extraiu dele mesmo sua própria religião. Depois, foi a esfera leiga, racional, científica que elaborou religiões terrestres. Robespierre quis uma religião da razão, Augusto Comte acreditou fundar uma religião da humanidade, Marx criou uma religião de salvação terrestre que se proclamou ciência. Pode-se mesmo pensar que o espírito republicano da França da Terceira República tinha algo de religioso, no sentido em que religava seus fiéis pela fé republicana e pela moral cívica. Malraux, ao anunciar que o século XXI seria religioso, não viu que o século XX era fanaticamente religioso, mas inconsciente da natureza religiosa de suas ideologias.
Assim, a palavra religião não pode mais se limitar às religiões com deuses. Mas, como recusamos considerar uma religião do segundo tipo (providencialismo e salvação), por que evocar a palavra religião?
Porque temos necessidade, para levar adiante a hominização e civilizar a Terra, de uma força comunicante e comungante.
É preciso um impulso, religioso neste sentido, para operar em nossos espíritos a reliance entre os humanos, que por sua vez estimule a vontade de ligar os problemas uns aos outros.
Pode-se considerar uma religião terrestre do terceiro tipo que seria uma religião da perdição?
Se o evangelho dos homens perdidos e da Terra-Pátria pudesse dar vida a uma religião, seria uma religião em ruptura tanto com as religião da salvação celeste quanto com as religiões da salvação terrestre, tanto com as religiões com deuses quanto com as ideologias que ignoram sua natureza religiosa. Mas seria uma religião capaz de compreender as outras religiões e de ajudá-las a reencontrar sua fonte. O evangelho da anti-salvação pode cooperar com o evangelho da salvação justamente na fraternidade que lhes é comum.
Essa religião, muitos de nós já a pré-vivemos, mas isoladamente, sem estarmos ainda re-ligados pela força comunicante e comungante.
         Essa religião comportaria uma missão racional: salvar o planeta, civilizar a Terra, realizar a unidade humana e salvaguardar sua diversidade. Uma religião que asseguraria, e não proibiria, o pleno emprego do pensamento racional. Uma religião que se encarregaria do pensamento leigo, problematizante e autocrítico oriundo da Renascença européia.
Seria uma religião no sentido mínimo do termo. Esse sentido mínimo não é redução ao racional. Ele contém algo de sobre-racional: participar daquilo que nos ultrapassa, abrir-se ao que Pascal chamava caridade e que podemos também chamar com-paixão. Compreende um sentimento místico e sagrado. Apela talvez a um ritual. Toda comunidade tem necessidade de comunhão. Nos ritos em que comungam os fiéis, estes sentem fortemente uma identidade que se liga a um sobre-racional e a um sobre-real, por eles chamado deus(es).
Seria uma religião sem deus, mas na qual a ausência de deus revelaria a onipresença do mistério.
Seria religião sem revelação (como o budismo), uma religião de (amor (como o cristianismo), de comiseração (como o budismo), na qual não haveria nem salvação por imortalidade! ressurreição do eu, nem libertação por desaparecimento do eu.
Seria uma religião das profundezas: a comunidade de sofrimento e de morte.
Seria uma religião sem verdade primeira, nem verdade final. Não sabemos por que o mundo é mundo, por que estamos no mundo, por que desapareceremos nele, não sabemos quem somos.
Seria uma religião sem providência, sem futuro radioso, mas que nos ligaria solidariamente uns aos outros na Aventura desconhecida.
Seria uma religião sem promessa mas com raízes: raízes em nossas culturas, raízes em nossa civilização, raízes na história planetária, raízes na espécie humana, raízes na vida, raízes nas estrelas que forjaram os átomos que nos constituem, raízes no cosmos onde apareceram as partículas que constituem nossos átomos.
Seria uma religião terrestre, não supraterrestre, e não mais de salvação terrestre. Mas seria uma de salvaguarda, de salvamento, de liberação de fraternidade.
Seria uma religião, como toda religião, com fé, mas, diferente das outras religiões que recalcam a dúvida pelo fanatismo, reconheceria em seu seio a dúvida e dialogaria com ela. Seria uma religião que assumiria a incerteza.
Seria uma religião aberta sobre o abismo.
 O reconhecimento da Terra-Pátria conflui com a religião dos mortais perdidos, ou melhor, desemboca nessa religião da perdição. Não há portanto salvação se a palavra significa escapar à perdição. Mas se salvação significa evitar o pior, encontrar o melhor possível, então nossa salvação pessoal está na consciência, no amor e na fraternidade, nossa salvação coletiva é evitar o desastre de uma morte prematura da humanidade e fazer da Terra perdida no cosmos, nosso “porto de salvação”.
  
MORIN, Edgar & KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria.P. Alegre, Sulina (3ª. Ed.), 2000. pg.171-182.

Dan


Serviço na fé

Espírito José Grosso
Se procuras o bem,
Não fuja ao serviço;
Saúde do vosso espírito
Encontra nele o bom serviço...

Enfrentar, sempre disposto,
A tarefa com Jesus,
E atender em si mesmo
De Deus, a exalsa luz!

“Faze a teu próximo,
O que desejas receber.”
Eis ao vosso caminho
De ser feliz e crescer!


(Trovas psicografadas no dia 12/09/2009 no Centro de Estudos Espíritas Allan Kardec, pelo médium Wagner G. Paixão)- Recebida por e-mail do Grupo Lauro

O homem e a mulher

Victor Hugo



O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.
O trono exalta e o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração. O cérebro produz a luz; o coração produz amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher é o anjo. O génio é imensurável; o anjo é indefenível;
A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher é a virtude extrema; A glória promove a grandeza e a virtude, a divindade.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pelas lágrimas.
A razão convence e as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece e o martírio purifica.
O homem pensa e a mulher sonha. Pensar é ter uma larva no cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço e  cantar é conquistar a alma.
 Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.


O mais conhecido de todos os escritores franceses, Victor Hugo, declarou-se adepto das verdades espíritas. Por meio das mesas girantes, obteve dos espíritos respostas para seus conflitos, como narra em seu texto publicado em 18 de setembro de 1854, na obra de autoria de Raymond Escholier, com o título “A Vida Gloriosa de Victor Hugo”.
Fonte Revista O Espírita

Aprendendo a Aprender


William Shakespeare 
     (1564-1616)
      Dan

Quando

Filho meu !

QUANDO, nas horas de íntimo desgosto, o desalento te invadir a alma e as lágrimas te aflorarem aos olhos, busca-me: eu sou aquele que sabe sufocar-te o pranto e estancar-te as lágrimas;
QUANDO te julgares incompreendido dos que te circundam e vires que, em torno, a indiferença recrudesce, acerca-te de mim: eu sou a LUZ, sob cujos raios se aclaram a pureza de tuas intenções e a nobreza de teus sentimentos;
QUANDO se te extinguir o ânimo para arrostares as vicissitudes da vida e te achares na iminência de desfalecer, chama-me: eu sou a FORÇA capaz de remover-te as pedras dos caminhos e sobrepor-te às adversidades do mundo;
QUANDO, inclementes, te açoitarem os vendavais da sorte e já não souberes onde reclinar a cabeça, corre para junto de mim: eu sou o REFÚGIO, em cujo seio encontrarás guarida para o teu corpo e tranqüilidade para o teu espírito;
QUANDO te faltar a calma, nos momentos de maior aflição, e te considerares incapaz de conservar a serenidade de espírito, invoca-me: eu sou a PACIÊNCIA, que te faz vencer os transes mais dolorosos e triunfar das situações mais difíceis;
QUANDO te debateres nos paroxismos da dor e tiveres a alma ulcerada pelos abrolhos dos caminhos, grita por mim: eu sou o BÁLSAMO que te cicatriza as chagas e te minora os padecimentos;
QUANDO o mundo te iludir com suas promessas falazes e perceberes que já ninguém pode inspirar-te confiança, vem a mim: eu sou a SINCERIDADE, que sabe corresponder à franqueza de tuas atitudes e à nobreza de teus ideais;
QUANDO a tristeza e a melancolia te povoarem o coração e tudo te causar aborrecimento, clama por mim: eu sou a ALEGRIA, que te insufla um alento novo e te faz conhecer os encantos de teu mundo interior;
QUANDO, um a um, te fenecerem os ideais mais belos e te sentires no auge do desespero, apela para mim: eu sou a ESPERANÇA, que te robustece a fé e te acalenta os sonhos;
QUANDO a impiedade recusar-se a relevar-te as faltas e experimentares a dureza do coração humano, procura-me: eu sou o PERDÃO, que te levanta o ânimo e promove a reabilitação de teu espírito;
QUANDO duvidares de tudo, até de tuas próprias convicções, e o cepticismo te avassalar a alma, recorre a mim: eu sou a CRENÇA, que te inunda de luz o entendimento e te habilita para a conquista da Felicidade;
QUANDO já não provares a sublimidade de uma afeição terna e sincera e te desiludires do sentimento de teu semelhante, aproxima-te de mim: eu sou a RENÚNCIA, que te ensina a olvidar a ingratidão dos homens e a esquecer a incompreensão do mundo;
E QUANDO, enfim, quiseres saber quem sou, pergunta ao riacho que murmura e ao pássaro que canta, à flor que desabrocha e à estrêla que cintila, ao moço que espera e ao velho que recorda. Eu sou a dinâmica da vida, e a harmonia da Natureza: chamo-me AMOR, o remédio para todos os males que te atormentam o espírito.
Estende-me, pois, a tua mão, ó alma filha de minhalma, que eu te conduzirei, numa seqüência de êxtases e deslumbramentos, às serenas mansões do Infinito, sob a luz brilhante da Eternidade.

Página do Professor Rubens Costa Romanelli: "O Primado do Espírito" capitulo 3, paginas 16-18, 1.965 (acervo do Dan)



Filhos Adotivos

Filhos existem no mundo que reclamam compreensão mais profunda para que a existência se lhes torne psicologicamente menos difícil.
Reportamo-nos aos filhos adotivos que abordam o lar pelas vias da provação, sem deixarem de ser criaturas que amamos enternecidamente.
Coloquemos-nos na situação deles para mais claro entendimento do assunto.
Muitos de nós, nas estâncias do pretérito, teremos pisoteado os corações afetuosos que nos acolheram em casa, seja escravizando-os aos nossos caprichos ou apunhalando-lhes a alma a golpes de ingratidão. Desacreditando-lhes os esforços e dilapidando-lhes as energias, quase sempre lhes impusemos aflição por reconforto, a exigir-lhes sacrifícios até que lhes ofertamos a morte em sofrimento pelo berço que nos deram em flores de esperança.
Um dia, no entanto, desembarcados no Mais Além, percebemos a extensão de nossos erros e, de consciência desperta, lastimamos as próprias faltas.
Corre o tempo e, quando aqueles mesmos espíritos queridos que nos serviram de pais retornam à Terra em alegre comunhão afetiva, ansiamos retomar-lhes o calor da ternura mas, nesse passo da experiência, os princípios da reencarnação, em muitas circunstâncias, tão somente nos permitem desfrutar-lhes a convivência na posição de filhos alheios, a fim de aprendermos a entesourar o amor verdadeiro nos alicerces da humildade.
Reflitamos nisso. E se tens na Terra filhos por adoção, habitua-te a dialogar com eles, tão cedo quando possível, para que se desenvolvam no plano físico sob o conhecimento da verdade. Auxilia-os a reconhecer desde cedo, que são agora seus filhos do coração, buscando reajustamento afetivo no lar, a fim de que não sejam traumatizados na idade adulta por revelações à base de violência, em que frequentemente se lhes acordam no ser as labaredas da afeição possessiva de outras épocas, em forma de ciúme e revolta, inveja e desesperação.
Efetivamente, amas aos filhos adotivos com a mesma abnegação com que te empenhas a construir a felicidade dos rebentos do próprio sangue. Entretanto, não lhes ocultes a realidade da própria situação para que não te oponhas à Lei de Causa e Efeito que os trouxe de novo ao teu convívio, a fim de olvidarem os desequilíbrios passionais que lhes marcaram a conduta em outro tempo.
Para isso, recorda que, em última instância, seja qual seja a nossa posição nas equipes familiares da Terra, somos, acima de tudo, filhos de Deus.
Pelo Espírito Emmanuel (Do livro “Astronautas do Além”, de Francisco Cândido Xavier e J. Herculano Pires - Espíritos diversos)



Os Pioneiros da Evangelização


A dedicação à infância foi um dos principais objetivos do Grupo Lauro. A Evangelização foi e tem sido de fundamental importância uma vez que é necessário educar a criança para o futuro. Ao longo desses anos, a Evangelização conquistou seu papel pedagógico e doutrinário na filosofia cristã e passou por diversas transformações, entre acertos e erros. Atualmente, a pedagogia do Departamento Infantil está construída nas bases do bosquejo pedagógico cristão. Conheça como começou essa história...

Seguem abaixo trechos de uma entrevista realizada em Novembro/2005, com as evangelizadoras e ex-diretoras do Departamento Infantil, que carinhosamente são chamadas de Tia Edi e Tia Neusinha. Na época, a reportagem foi realizada pelos evangelizadores Rafael, Edna e Simone.

Departamento Infantil (DI): Tia Edi, após inauguração do Irmão Lauro na atual sede, quanto tempo depois iniciou a evangelização ?
Edi: Evangelização? Quantos anos tem o Irmão Lauro?

DI: Nós sabemos são quarenta e dois anos. Na Padre Arlindo deve ter trinta anos.
Edi: Eu calculo que comecei no Departamento Infantil por volta de 1975.

“QUANDO EU FUI À INAUGURAÇÃO DO IRMÃO LAURO, ERA APENAS UMA LAJE E NÓS FIZEMOS O PRIMEIRO CHÁ EMBAIXO DESSA LAJE”

DI: Quantas crianças tinham naquela época?
Edi: Quando eu comecei no Departamento Infantil tinha no máximo vinte crianças.

DI: Qual era o objetivo na época?
Edi: No começo era a alegria de evangelizar e ajudar as crianças, porque eu sempre dizia para todos que mesmo que elas não escutassem a semente vai seguir com eles. No começo éramos um pouco criticados, as crianças que iam ao Irmão Lauro jogavam pedra e matavam passarinhos. Ninguém aprende nada num dia, é devagarzinho, né? O dia que eles aprenderem a semente vai ficar. O dia que eles precisarem de alguma coisa eles vão lembrar.
Eu vou contar uma passagem rápida para vocês: uma vez teve uma mãe que veio falar comigo, “o meu filho vem estudar aqui há tanto tempo e até hoje vocês não mandaram um caderno e um lápis para ele”. Na verdade ela achou que o menino estava estudando em um grupo escolar, entendeu? Eu expliquei para ela o que nós fazíamos, mostrei a evangelização. Ela não sabia o que fazíamos, ela mandava, mas na verdade os pais não sabiam. Os pais não iam as reuniões.

DI: O que a evangelização contribui para as senhoras?
Edi: Contribui no meu crescimento, eu aprendi muito com as crianças, porque, além de ter estudar para passar para elas, elas passaram muitas coisas para mim. Eu aprendi realmente muitas coisas da parte espiritual, porque eu só tinha a prática como professora.
Neuzinha: Eu também, a evangelização ensinou-me e educou-me, aprendi a ser mais gente, aprendi a amar. Eu não evangelizava, as crianças me evangelizam.

DI: Qual foi a experiência que as senhoras angariaram pessoalmente?
Edi: Pessoalmente eu angariei para o meu futuro, eu aprendi com as crianças, que, além de tudo, tem um espírito que é muito importante para min. Tudo acrescentava para o meu futuro, a partir daquela data eu estava criando uma nova vida, estava aprendendo com as crianças que a parte espiritual é mais importante com a parte material, isso ficou para o resto da minha vida.
Neuzinha: Foi o meu crescimento espiritual, porque sempre acreditei no espírito eterno e a criança tem um espírito que traz conhecimentos e nós adultos somos privilegiados por trabalhar com elas.

DI: Na época que as senhoras evangelizavam houve um fato marcante para as duas?
Edi: Quando eu evangelizava, eu estava com os pequenos e uma vez uma criança chegou e disse: “tia eu trouxe um presente para você”. Ele me deu um vidrinho e quando olhei havia um mosquitinho. É um mosquitinho que tem no vidro? Perguntei: “Tia esse é um mosquito da minha coleção, que estou dando pra você”. Eu me emocionei muito com aquilo e guardo até hoje. Eu nunca esqueci.
Neuzinha: Eu tenho duas histórias que marcaram muito na evangelização. Uma foi um catatau que chegou acompanhado da mãe com um pacotinho nas mãos. “A senhora aceita?” Dentro do pacotinho havia um dentinho. Ela tirou o primeiro dentinho e deu para mim. Mostrei o dente para a tia Edi e ela me disse: “Filha, essa criança gosta muito de você”. Eu guardo até hoje, fiz um pingente com ele.
A outra foi o Celso, ele tinha onze anos e estava com câncer no intestino. Esse menino era muito dedicado a mim, tínhamos uma afinidade espiritual muito grande, chegou o dia da sua última dor, ele me abraçou e disse que estava com dor. Esse foi o último abraço que eu recebi do Celso, eu tinha certeza que ele está bem no plano espiritual.

DI: Na época que as senhoras evangelizavam o mundo estava diferente, hoje as crianças têm internet, celular, estão sabendo de tudo o que acontece, o mundo está globalizado. Diante disso, a evangelização contínua igual ou sofreu atualização?
Edi: Eu só tenho a experiência na evangelização de anos atrás, o que eu colocar hoje não seria válido porque eu não estou evangelizando. Eu acredito que os espíritos das crianças ainda aceitem histórias. Falando agora como professora, a criança grava. Vocês têm mais experiência nos dias de hoje do que eu, mas não têm a experiência do passado que eu tive e eu não tenho a experiência do presente de vocês.
Neuzinha: Eu ainda continuo sendo evangelizadora, eu ainda continuo com aquele trabalho de contar histórias, damos um conceito baseado numa história. Eu trabalho a história e trago os ensinamentos do evangelho de Jesus sobre ela. Exemplo: uma criança que não come isso ou que não faz aquilo, eu conto a história e ponho para a criança o respeito, o amor, a gratidão, entendeu? Como você disse, o meio de comunicação está trazendo muitas coisas para as crianças, mas também traz coisas ruins para o espírito. Não adianta ficarmos no meio daquela comunidade, isso é um desenvolvimento, um crescimento do homem, mas muitas coisas desenvolvidas de forma errada, porque a criança hoje fica muito voltada na imagem, eles gravam dentro deles, não gravam? Nós temos que tomar muito cuidado com o meio de comunicação, meio da imagem, porque talvez o nosso mundo esteja assim devido isso, o pai hoje não tem tempo para o filho e fica ali, buscando e somando, porque é captador de todas as coisas.

DI: Como começou a evangelização no Grupo Lauro, quantas pessoas tinham na época, quais os evangelizadores que iam?
Edi: Os evangelizadores eram o Arnaldo, a Íris, a Josefina, que está no plano espiritual, éramos os quatro que trabalhávamos. Naquela época nos preocupávamos com a parte educativa, porque as crianças não tinham nenhuma formação, elas não sabiam ainda que era uma coisa espiritual, elas eram muito carentes do espírito e também do corpo, eram carentes de pão. Nós fazíamos de tudo por elas. Ninguém achava que estivéssemos fazendo grande coisa. No começo nós ensinávamos a doutrina, a moral e tudo. Mas houve uma vez que uma das crianças matou um passarinho e então todos disseram do que valia essa evangelização.

DI: Isso aconteceu dentro do Grupo tia?
Edi: Não, na casa dele. Ele matou o passarinho e contou na escolinha que o tinha matado. Isso valeu para uma porção de pessoas que não eram a favor, porque é lógico, as crianças destroem as coisas e tudo. Então eles criticaram dizendo que a evangelização não levaria a nada. Pois eu disse: acredito que a semente que nós estamos plantando vai crescer e o dia que eles tiverem um problema eles vão lembrar de umas palavras que nós deixamos no coração deles.

DI: Essa dificuldade de evangelizar era dentro do Grupo?
Edi: Já era dentro do Grupo, porque havia irmãos nossos que não acreditavam na evangelização, as crianças eram rebeldes, eram muito rebeldes, naquela época não tinha sacolinha de natal, entendeu... nós estávamos começando mesmo, era só uma coisa de amor, mas foi crescendo, crescendo bem devagar e os pais não participavam.

DI: As crianças eram da comunidade mesmo?
Edi: Eram só crianças do Pq. Bristol, mas valeu a pena. Hoje eu olho para trás e digo valeu a pena.

DI: Essa pergunta que farei, eu gostaria que as senhoras respondessem com o coração. Qual a importância que o Grupo Lauro teve e tem para vocês?
Edi: O Grupo Lauro teve e tem, vou pôr no presente também e terá, já vou pôr no futuro. Quando qualquer coisa, em qualquer momento que eu me lembrar que uma criança precisa de ajuda, eu penso no Irmão Lauro. Ele foi o início para mim, onde eu iniciei na doutrina, comecei a estudar no Irmão Lauro, porque para eu evangelizar eu me dediquei mais, foi um momento muito oportuno da minha vida. Eu estava com muitas dificuldades de saúde e foi onde encontrei grandes amigos. O Irmão Lauro sempre será para mim a casa onde eu aprendi muito.
Neuzinha: Na verdade eu não ia para o Irmão Lauro eu frequentava outro lugar. Meu vizinho falou do Grupo e eu fui. Foi lá que eu conheci a Edi (carinhosamente Neuzinha chamada de mãe) conheci uma outra família, sempre me dediquei bastante e sempre que posso quero estar lá, mesmo na minha rebeldia. A minha vida são as crianças, são elas que me fortalecem, não são os trabalhos que eu faço no Lauro, é a criança. Eu não estou evangelizando, mas as crianças estão eternamente no meu coração.

DI: De tudo que as senhoras viveram na Evangelização, de todas as experiências que tiveram, o que podem falar para o pessoal que está começando?
Edi: Em primeiro lugar acreditem no que vocês estão fazendo com amor e estão fazendo com o coração. As dificuldades existem e são as alavancas que levam ao trabalho. Eu vou contar para vocês uma história bem pequenininha: havia uns sapinhos que queriam subir a montanha, quando eles começaram a subir outros que estavam lá no alto da montanha gritavam: Vocês não vão subir, não vão conseguir e alguns desistiram. Quase chegando no topo, novamente eles ouviram: Não adianta, vocês não conseguem e então desistiram. Mas um único sapinho continuou e chegou ao topo. Vendo isso os que gritavam perguntaram: Como conseguiu? E ele fez um sinal, era surdo. Esse sapinho não ouviu nada dos negativos que os outros que não acreditaram voltaram. É que o que eu digo para os evangelizadores que já trabalharam e chegaram a uma certa idade e não têm condições, por qualquer motivo, de continuar: deixe os lugares para os mais jovens, e para os mais jovens é importante acreditar no que vão fazer e ter muito amor, fechando os ouvidos para o que os outros dizem, porque as dificuldades existem e que os outros vão querer desanimá-los. Não desanimem, sigam em frente.
Neusinha: Não adianta dizer que vão mudar de casa, eu vou ali ou vou lá, porque todo o lugar tem dificuldades. A dificuldade nos faz crescer e para isso temos que enfrentar a dificuldade; é como uma pedra no caminho, damos um chute e seguimos em frente. Não dê ouvido a ninguém, porque nada é fácil, mas vale a pena deixar o caminho que você escolheu. Quero deixar aos evangelizadores esta no caminho que fiz: “Criança é como uma rosa, quando todas as pétalas estão juntas, essa rosa é sempre bem vinda para enfeitar, alegrar e colorir, mas quando as pétalas se separam não têm utilidade, junte e regue todas as pétalas de sua criança e a transforme numa grande e linda rosa”.

DI: Houve um momento difícil da evangelização em que a senhora pensou em desistir?
Edi: Não houve esse momento,  eu só deixei de ir no momento em que de fato comecei a perder a visão e não pude ir mais. O momento mais difícil foi em que tive que assumir, tive que falar alto e não vou falar o nome da pessoa disse: “Vocês não fazem nada no Departamento Infantil, vocês estão aqui perdendo seu tempo, porque essas crianças não aproveitam nada”. Foi um momento muito difícil, em que eu disse agora temos que ficar, temos que mostrar que somos capazes. Foi difícil porque foi dito em uma reunião de diretoria, na frente de todos, eu não fui poupada na frente dos meus outros irmãos.
Eu quero agradecer ao Irmão Lauro a oportunidade que nos deu, a você Simone que me deu a oportunidade de ter você junto, a todas as crianças, porque todos nós trabalhamos juntos, nós éramos uma só família e vamos lutar e cantar, inventar música... foi muito bom,  foi uma parte da minha vida maravilhosa. Eu não esqueço e se hoje eu seguro esse problema que eu estou levando eu devo ás crianças que me seguraram, ao Irmão Lauro que me deu força, a Jesus acima de tudo e eu quero continuar, o que vocês precisarem de mim podem contar.
Eu quero lembrar uma pessoa do infantil que aproveitou e foi preparada, a Maria José. Começou pequenininha conosco, ela teve a primeira crise de diabete quando ela estava no Departamento Infantil, peguei ela com 10 anos, são coisas que você vai olhando pelo caminho e você fala: quanta gente aproveitou esse Departamento Infantil- e vocês vão dizer: quantas daqui para frente vão aproveitar. Vocês agora estão preparando o futuro, depende de vocês, o que dependeu de mim eu fiz com muito amor e eu tenho certeza, tenho fé em vocês que vão vencer e vão produzir muito mais do que eu.

DI: A evangelização é uma das bases de sustentação do Grupo, gostaria que a senhora comentasse?
Edi:  Primeiro, em termos espirituais, o espírito da criança é informação, precisa muito mais do que tudo ser evangelizado mesmo, quem é o futuro do Grupo Lauro? São as crianças, para isso precisam estar evangelizadas, nós não queremos crianças preparadas para levar o Irmão Lauro para frente? As crianças já estão levando, porque elas estão levando os evangelizadores, elas aprendendo, futuramente elas serão as evangelizadoras. A Simone não é? A Renata não é? São as crianças que levam, elas têm lembranças boas dos evangelizadores, eu acho isso muito importante. Jesus mesmo dizia “Deixai vir a mim os pequeninos” não é novidade para o Irmão Lauro e nem para nós.
Neuzinha: É verdade, porque é a criança que sustenta em qualquer casa, seja espírita ou não. Vocês já pararam para pensar no sábado, naquele horário, o intercâmbio de crianças, temos que ser modelos, respeitar um ao outro temos que amar realmente.


“TEMOS QUE AMAR REALMENTE, PORQUE O AMOR TRANSFORMA”


Edi: Eu quero agradecer a Deus por ter trazido vocês aqui, aos amigos, a você Simone eu fico tão feliz de você pertencer ao Departamento Infantil e estar ocupando o lugar que você ocupa, que Deus proteja vocês e que vocês possam continuar cada vez mais com as crianças do Grupo Irmão Lauro. Muito obrigado, foi uma grande oportunidade que vocês me deram.
Neuzinha: Eu agradeço a vocês, porque foram vocês que nos deram a oportunidade, estávamos precisando, porque Deus é bondade, amor e carinho.

Publicado originalmente no extinto Jornal Vozes do Lauro, em novembro de 2005, quando o Grupo da Fraternidade irmão Lauro completava 42 anos de existência. 

GB