'Morrer" é voltar para casa

Nenhum sofrimento, na Terra, será talvez comparável ao daquele coração que se debruça sobre outro coração regelado e querido que o ataúde transporta para o grande silêncio.
Ver a névoa da morte estampar-se, inexorável, na fisionomia dos que mais amamos, e cerrar-lhes os olhos no adeus indescritível, é como despedaçar a própria alma e prosseguir vivendo.
Digam aqueles que já estreitaram de encontro ao peito um filhinho transfigurado em anjo da agonia; um esposo que se despede, procurando debalde mover os lábios mudos; uma companheira  cujas mãos consagradas à ternura pendem extintas; um amigo que tomba desfalecente para não mais se erguer, ou um semblante materno acostumado a abençoar, e que nada mais consegue exprimir senão a dor da extrema separação, através da última lágrima.
Falem aqueles que, um dia, se inclinaram, esmagados de solidão, à frente de um túmulo; os que se rojaram em prece nas cinzas que recobrem a derradeira recordação dos entes inesquecíveis; os que caíram, varados de saudade, carregando no seio o esquife dos próprios sonhos; os que tatearam, gemendo, a lousa imóvel, e os que soluçaram de angústia, no ádito dos próprios pensamentos, perguntando, em vão, pela presença dos que partiram.
Todavia, quando semelhante provação te bata à porta, reprime o desespero e dilui a corrente da mágoa na fonte viva da oração, porque os chamados mortos são apenas ausentes,  morrer é voltar para casa,  e as gotas de teu pranto lhes fustigam a alma como chuva de fel.
Também eles pensam e lutam, sentem a choram.
Atravessam a faixa do sepulcro como quem se desvencilha da noite, mas, na madrugada do novo dia, inquietam-se pelos que ficaram... Ouvem-lhes os gritos e as súplicas, na onda mental que rompe a barreira da grande sombra e tremem cada vez que os laços afetivos da retaguarda se rendem à inconformação ou se voltam para o suicídio.
Lamentam-se quanto aos erros praticados e trabalham, com afinco, na regeneração que lhes diz respeito.
Estimulam-te à prática do bem, partilhando-te as dores e as alegrias.
Rejubilam-se com as tuas vitórias no mundo interior e consolam-te nas horas amargas para que te não percas no frio do desencanto.
Tranqüiliza, desse modo, os companheiros voltaram para casa e que demandam o Além, suportando corajosamente a despedida temporária, e honra-lhes a memória, abraçando com nobreza os deveres que te legaram.
Recorda que, em futuro mais próximo que imaginas, respirarás entre eles, comungando-lhes as necessidades e os problemas, porquanto terminarás também a própria viagem no mar das provas redentoras.
E, vencendo para sempre o terror da morte, não nos será lícito esquecer que Jesus, o nosso Divino Mestre e Herói do Túmulo Vazio, nasceu em noite escura, viveu entre os infortúnios da Terra e expirou na cruz, em tarde pardacenta, sobre o monte empedrado, mas ressuscitou aos cânticos da manhã, no fulgor de um jardim.
  
Ao casal amigo Gabriel e Stela nossa solidariedade.
Grupo Lauro
Adaptado do Livro Religião dos Espíritos (Emmanuel - Chico Xavier)

Origem da prece de Cáritas

Deus, nosso Pai, que sois todo Poder e Bondade, dai a força àquele que passa pela provação, dai a  luz àquele que procura a verdade; ponde no coração do homem a compaixão e a caridade!
Deus, Dai ao viajor a estrela guia, ao aflito a consolação, ao doente o repouso.
Pai, Dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia, e ao órfão o pai!
Senhor, que a Vossa Bondade se estenda sobre tudo o que criastes. Piedade, Senhor,  para aquele que vos não conhece, esperança para aquele que sofre. Que a Vossa Bondade permita aos espíritos consoladores derramarem por toda a parte, a paz, a esperança, a fé.
Deus! Um raio, uma faísca do Vosso Amor pode abrasar a Terra; deixai-nos beber nas  fontes dessa bondade fecunda e infinita, e todas as lágrimas secarão, todas as dores se acalmarão.
E um só coração, um só pensamento subirá até Vós, como um grito de reconhecimento e de amor.
Como Moisés sobre a montanha, nós Vos esperamos com os braços abertos, oh Poder!, oh Bondade!, oh Beleza!, oh Perfeição!, e queremos de alguma sorte merecer a Vossa Divina Misericórdia.
Deus, dai-nos a força para ajudar o progresso, afim de subirmos até Vós; dai-nos a caridade pura, dai-nos a fé e a razão; dai-nos a simplicidade que fará de nossas almas o espelho onde se refletirá a Vossa Divina e Santa Imagem.
Assim Seja.
  
"A prece, denominada De Cáritas, tem sido querida e contritamente orada por várias gerações de espíritas.
CÁRITAS era um espírito que se comunicava através de uma  das grandes médiuns de sua época – Mme. W. Krell – em um grupo de Bordeaux (França), sendo ela uma das maiores psicografas da História do Espiritismo, em especial por transmitir poesia (que se constitui no ácido da psicografia), da lavra de Lamartine, André Chénier, Saint-Beuve e Alfred de Musset, além do próprio Edgard Allan Poe. Na prosa, recebeu ela mensagens de O Espírito da Verdade, Dumas, Larcordaire, Lamennais, Pascal, e dos gregos Ésopo e Fenelon.
A prece de Cáritas foi psicografada na noite de Natal, 25 de dezembro, do ano de 1873, ditada pela suave Cáritas, de quem são, ainda, as comunicações: "Como servir a religião espiritual"e "A esmola espiritual".
Todas as mensagens que Mme. W. Krell psicografada em transe, e, que chegaram até nós, encontram-se no livro Rayonnements de la Vie Spirituelle, publicado em maio de 1875 em Bordeaux, inclusive, o próprio texto em francês (como foi transmitido) da Prece de Cáritas.
A prece de Cáritas é a mais linda e comovente em toda a literatura espírita, mas sua origem não é muito conhecida: se perguntarem à maioria dos espíritas como ela surgiu, e o porquê da denominação de "Cáritas", poucas pessoas arriscarão dar um parecer.
"Chamo-me Caridade, sou o caminho principal que conduz a Deus; segui-me, eu sou a meta a que vós todos deveis visar"
O que se apregoa nos meios religiosos, e principalmente no movimento espírita, é que "Cáritas" é um espírito que se comunicava através das faculdades de uma das grandes médiuns de seu tempo: Madame W. Krell, no círculo espírita de Bordeux, na França de Allan Kardec. A prece foi psicografada na véspera do Natal de dezembro de 1873, há mais de cem anos.
Acredita-se que esse espírito foi no passado a figura de Irene, que foi martirizada em Roma no ano 305, quando das perseguições do Imperador Diocleciano. Canonizada por sua religião – a posteriori veio a ser conhecida como Santa Irene – ela e suas irmãs foram convertidas ao Cristianismo. Diocleciano determinou perseguição aos cristãos, e ela foi acusada de possuir "livros proibidos" e, por isso mesmo, foi condenada à fogueira, enquanto suas irmãs foram degoladas à sua frente.
Madame Krell, esquecida no presente, pode ser considerada um dos maiores médiuns psicográficos da história do Espiritismo. A perfeição extraordinária de mensagens psicografadas dos maiores nomes da poesia francesa não poderia jamais colocar o nome da médium em cheque. Na prosa Madame Kreel recebia constantes comunicações do Espírito de/da Verdade, Dumas, Lacordaire, Lamennais, Pascal, do famoso grego Ésopo, Fénelon e outros, que foram publicados no livro "Rayonnementes de la Vie Spirituelle", em maio de 1875. Ressalte-se que madame Kreel psicografava em transe, tendo colocado no papel o trabalho de Lamartine, André Chénier, Alfred de Musset, Edgard Allan Poe, Saint-Beuve, além de mensagens como "A esmola espiritual" e "Como servir a religião espiritual":
"A esmola, meus amigos, algumas vezes é útil, porque alivia os pobres. Mas é quase sempre humilhante tanto para quem dá, quanto para quem a recebe. A caridade, pelo contrário, liga o benfeitor e o beneficiário e, além disso, se disfarça de tantas maneiras! A caridade pode ser praticada mesmo entre colegas e amigos, sendo indulgentes uns para com os outros, perdoando-se mutuamente suas fraquezas, cuidando de não ferir o amor-próprio de ninguém."

Poeminho do Contra



Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!


Mario Quintana
(postado por dan)

O Pai Nosso - Original

Tradução Direta do Texto Hebraico
Autor: Prof. Severino Celestino da Silva

Texto em Hebraico Transliterado
Avnu shebashamaim itkadash shemehá. Tavô malcutechá iassé retsonchá baárets caasher na'assá bashamaim.
Ten-lanu haiom lechem chuknu. Uslách-lanú et-ashmatenu caasher solchim anachnu laasher ashmu lanu.
Veal-tevienu lidei massá. Ki in-hatsilenu min-hará.
Amen.

Tradução:

Pai nosso dos céus, santo é o teu nome, venha o teu reino, tua vontade se faz na terra como também nos céus.
Dá-nos hoje nossa parte de pão. Perdoa-nos as nossas culpas, quando nós perdoamos as culpas de nossos devedores.
Não nos deixes entregues à provação; porque assim nos resgatas do mal.
Amém (ou, que assim seja, que possa ocorrer assim).


Nota:

PROFESSOR, PESQUISADOR E ESCRITOR

O Dr Severino Celestino da Silva, estudioso de línguas antigas e profundo analista do livro mais lido pela humanidade, a Bíblia. O ilustre professor é graduado em Odontologia, com especialização em Periodontia, mestrado em Clínicas Odontológicas pela Universidade de São Paulo e doutorado em Odontologia Preventiva e Social pela Fundação de Ensino Superior de Pernambuco.
É Professor de Ensino Superior na Universidade Federal da Paraíba. Ex-seminarista,é pesquisador do hebraico e das religiões, principalmente o judaísmo, base de todas as religiões cristãs. Sempre estudou a essência e conteúdo divinos da Bíblia em sua língua original, o hebraico.
Espírita há mais de 20 anos, estudou toda a obra de Kardec e pesquisadores contemporâneos, relacionando o Espiritismo com a Bíblia, com respeito e conhecimento. 


Aborto espontâneo: expiação ou recusa?

Sob a perspectiva da ciência
O aborto espontâneo (IIG) é o termo usado para uma gravidez que termina por si só, independente de qualquer manobra local ou geral voluntária, geralmente ocorre dentro das primeiras 20 semanas de gestação.
Pode ser um fenômeno: - Isolado. - Habitual ou de repetição (dificuldade de diagnóstico, prognóstico ou tratamento.)
O aborto espontâneo desenvolve-se em duas fases:
a) Ameaça de aborto.
É importante o diagnóstico, pois o tratamento precoce pode por vezes salvar a gravidez, se houver vida embrionária.
Clinicamente é caracterizado por:
1º- Pequenas metrorragias. (hemorragias)
2º- Queixas de cólicas discretas aos quadrantes inferiores. (cólicas na região pélvica)
b) – Aborto propriamente dito.
É anunciada pelo aumento das perdas sanguíneas, pelo aparecimento de dores ou o seu aumento.*
Na sua evolução o aborto espontâneo é:
- Natural e em geral completo e pode efetuar-se:
a) Num só tempo (embrião ou feto + placenta  – durante o 1º e 2º mês)
b) Em dois tempos: 1º – embrião ou feto
 2º – placenta
  - durante o 3º e 4º mês.
(Após o aborto:  1) A involução (útero volta ao normal), é rápida; 2) Pode haver lugar ao aparecimento do leite materno dependendo esta situação do tempo de gravidez que havia; 3) A menstruação aparece entre 30-90 dias (média 45 dias) após o aborto se ter consumado.
Etiologia (=causa)
Em cerca de 50% dos casos, a etiologia precisa do aborto não se diagnostica, mas noutros 50%, são revelados após técnicas auxiliares de diagnóstico, por ex: ecografia, histerosalpingografia, etc…
1- Causas ovulares; 2 – Causas uterinas; 3 – Causas de ordem geral; 4 – Déficits hormonais; 5 – O traumatismo ou os microtraumatismos repetidos; 6 – Algumas infecções; 7- Anomalias cromossômicas: *

O que nos diz a Doutrina Espírita sobre o aborto espontâneo:

Considerações sobre o Aborto Espontâneo

Consciência, perispírito e enfermidade.
 Há no homem alguma outra coisa além da alma e do corpo? E qual é a sua natureza?
“Semimaterial, isto é, de natureza intermédia entre o Espírito e o corpo. É preciso que seja assim para que os dois se possam comunicar um com o outro. Por meio desse laço é que o Espírito atua sobre a matéria e reciprocamente.” O homem é, portanto, formado de três partes essenciais:
1º – o corpo ou ser material, análogo ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital;
2º – a alma, Espírito encarnado que tem no corpo a sua habitação;
3º – o princípio intermediário, ou perispírito, substância semimaterial que serve de primeiro envoltório ao Espírito e liga a alma ao corpo. Tal, num fruto, o gérmen, o perisperma e a casca.
Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se?
Na questão 344 de “0 Livro dos Espíritos”, encontramos a seguinte orientação:
- no momento da concepção, o Espírito se une em definitivo ao corpo, por laços ainda frágeis, podendo haver mortes prematuras, tanto pela imperfeição da matéria, quanto, principalmente, por tratar-se de prova, tanto para ele quanto para os pais.
André Luiz elucida-nos a esse respeito: “Na Espiritualidade, os servidores da Medicina penetram, com mais segurança, na história do enfermo para estudar, com o êxito possível, os mecanismos da doença que lhe são particulares. Aí, os exames nos tecidos psicossomáticos com aparelhos de precisão, correspondendo às inspeções instrumentais e laboratoriais em voga na Terra, podem ser enriquecidos com a ficha cármica do paciente, a qual determina quanto à reversibilidade ou irreversibilidade da moléstia, antes de nova reencarnação, motivo por que numerosos doentes são tratáveis, mas somente curáveis mediante longas ou curtas internações no campo físico, a fim de que as causas profundas do mal sejam extirpadas da mente pelo contacto direto com as lutas em que se configuraram.”
XAVIER, F.C./ Espírito André Luiz; “Evolução em Dois Mundos” – 14ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1995. Segunda parte, cap, 19.

Quando o Reencarnante desiste  da prova.
Nalguns casos o aborto considerado espontâneo é, realizado pelo próprio espírito em processo reencarnatório. “(…) como os laços que ao corpo o prendem são ainda muito fracos, facilmente se rompem e podem romper-se por vontade do Espírito, se este recua diante da prova que escolheu. Em tal caso, porém, a criança não vinga.” Todavia, não há como outro Espírito passar a ocupar o corpo destinado ao Espírito que desistiu de reencarnar. Kardec, Allan; O Livro dos Espíritos; p.345

A influência da mente da mãe
Há outros casos de abortos aparentemente espontâneos, que são na verdade provocados mentalmente pela mãe. XAVIER, Francisco Cândido/Espírito André Luiz; Evolução em Dois Mundos, 10ª ed., Cap. XIII, pág. 195.
O aborto espontâneo e o suicídio em vidas pregressas.
~PEREIRA, Y.A./Espírito Camilo Cândido Botelho; “Memórias de um Suicida”. 22ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2000. Segunda parte, cap- I.
“– Como compreenderemos os casos de gestação frustrada quando não há Espírito reencarnante para arquitetar as formas do feto? FCX/Espírito André Luiz; Evolução em dois mundos. Cap. XIII, pag. 195
“(…) nas questões 136- a) e 136 – b) 356 – a) de “O Livro dos Espíritos”, consta que podem existir corpos sem alma, sendo apenas uma massa de carne sem inteligência;
- Há casos em que jamais houve um espírito, destinado aos corpos, nada devendo se cumprir neles.
Há também espíritos que, pela recusa sistematicamente determinada em reencarnar, para fugir de determinadas situações, romperam os liames que os unia ao embrião. Estes terão seus débitos cármicos agravados e muitas vezes encontrarão posteriores dificuldades em reencarnar, sendo atraídos a gestações inviáveis e a pais necessitados de vivenciar a valorização da vida.

Os abortos espontâneos podem ser resultado do compromisso dos pais, antes de reencarnar, de passarem pela prova da infertilidade, por terem adquiridos débitos com a lei universal na área do renascimento.
Podem também ser experiência para aqueles que, por não compreenderem a profundidade do valor da vida, renascem com essa limitação como forma de aprendizado. Em alguns casos, o espírito programado para nascer foi cúmplice do processo que envolvia todos os personagens.

“O aborto provocado, sem necessidade terapêutica, revela-se matematicamente seguido por choques traumáticos no corpo espiritual, tantas vezes quantas se repetir o delito de lesa maternidade, mergulhando as mulheres que o perpetram em angústias indefiníveis, além da morte, de vez que, por mais extensas se lhes façam as gratificações e os obséquios dos Espíritos Amigos e Benfeitores que lhes recordam as qualidades elogiáveis, mais se sentem diminuídas moralmente em si mesmas, com o centro genésico desordenado e infeliz, assim como alguém indebitamente admitido num festim brilhante, carregando uma chaga que a todo instante se denuncia.
Destarte, ressurgem na vida física, externando gradativamente, na tessitura celular de que se revestem, a disfunção que podemos nomear como sendo a miopraxia (paralesia) do centro genésico atonizado (sem tônus), padecendo, logo que
reconduzidas ao curso da maternidade terrestre, as toxemias da gestação. Dilapidado o equilíbrio do centro referido, as células ciliadas, mucíparas e intercalares não dispõem da força precisa na mucosa tubária para a condução do óvulo na trajetória endossalpingeana (trajetória que o óvulo faz através das trompas de Falópio), nem para alimentá-lo no impulso da migração por deficiência hormonal do ovário, determinando não apenas os fenômenos da prenhes ectópica ou localização heterotópica do ovo, mas também certas síndromes hemorrágicas de suma importância, decorrentes da nidação do ovo fora do endométrio ortotópico, ainda mesmo quando já esteja acomodado na concha uterina, trazendo habitualmente os embaraços da placentação baixa ou a placenta prévia hemorragípara (que provoca hemorragias) que constituem, na parturição, verdadeiro suplício para as mulheres portadoras do órgão germinal em desajuste.”
XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz), Evolução em Dois Mundos, 10ª ed., Cap. XIV, pág. 198-9.

Consideração Final
Tudo é supervisionado por Deus através de seus filhos já evoluídos, como o é Jesus, Governador da Terra.Gravidez com final feliz, ou a terminar em aborto espontâneo, se pautado sob uma estreita perspectiva de uma só vida, mostra-se totalmente diferente ao entendermos haver a sabedoria de Deus em tudo, num planejamento de longo prazo, de muitos milênios, tendo em vista a nossa evolução moral e intelectual. Demonstra-se, de forma clara, o quanto nossos Espíritos protetores trabalham por nós, com tanto tempo de antecedência, e o quanto temos a agradecer a Deus pela sua ajuda incondicional. Cabe à candidata a mãe  procurar agir da melhor maneira, educando os seus pensamentos e as suas ações, evitando dessa forma intoxicar a vida que começa a desenvolver-se no seu interior, buscando, pela prece, e pelo amor, alimentar espiritualmente esse pequeno ser, dando-lhe força para vencer medos e inseguranças.
As mães/gestantes conscientes da sua grande missão irão procurar a inspiração dos bons Espíritos, de forma a contribuir para o bom êxito do planejamento reencarnatório.  Em todas as situações, temos que Deus está presente. Acaso, não existe! “KUHL, Eurípedes, Genética e Espiritismo, 1ª ed., pág. 115-16.

Tema apresentado por Gina Ferreira
Fraternidade Espírita Cristã





Cativar

O principezinho escalou uma grande montanha. As únicas montanhas que conhecera eram os três vulcões que lhe davam  pelo joelho. O vulcão extinto servia-lhe de tamborete. "De montanha tão alta, pensava ele, verei todo o planeta e todos os homens..." Mas só viu agulhas de pedra, pontudas.
- Bom dia, disse ele inteiramente ao léu.
- Bom dia... Bom dia... Bom dia... respondeu o eco.
- Quem és tu? perguntou o principezinho.
- Quem és tu... quem és tu... quem és tu... respondeu o eco.
- Sede meus amigos, eu estou só, disse ele.
- Estou só... estou só... estou só, respondeu o eco.
"Que planeta engraçado! pensou então. É todo seco, pontudo e salgado. E os homens não tem imaginação. Repetem o que a gente diz... No meu planeta eu tinha uma flor: e era sempre ela que falava primeiro".
Mas aconteceu que o principezinho, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas na direção dos homens.
- Bom dia, disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia, disseram as rosas.
O principezinho contemplou-as. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? perguntou ele estupefato.
- Somos rosas, disseram as rosas.
- Ah! exclamou o principezinho...
E ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!
"Ela haveria de ficar bem vermelha, pensou ele, se visse isto... Começaria a tossir, fingiria morrer, para escapar do ridículo. E eu então teria que fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela era bem capaz de morrer de  verdade..."
Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um dos quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito  grande..." E, deitado na relva, ele chorou.
E foi então que apareceu a raposa:
- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas? - Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil  outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.
Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para s olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

Trecho: Pequeno Princípe - Antoine de Saint-Exupéry

Tem Coragem

 Nas contingências afligentes do cotidiano e ao largo das horas que parecem estacionadas sob a injunção de dores íntimas, extenuantes, que se prolongam, não te deixes estremunhar, nem te arrebentes em blasfêmias alucinadas, com que mais complicarás a situação. 
Tempestade alguma, devastadora quão demorada, que não cesse. 
Alegria nenhuma, repletada de bênçãos e glórias, que se não acabe. 
A saúde perfeita passa; a juventude louçã desaparece; o sorriso largo termina; a algaravia de festa silencia... 
Da mesma forma, o aguilhão do infortúnio se arrebenta; a enfermidade se extingue; a miséria muda de lugar; a morte abre as portas da vida em triunfo... 
Tudo quanto sucede ao homem constitui-lhe precioso acervo, que o acompanhará na condição de tesouro que poderá investir, conforme as circunstâncias que lhe cumpre enfrentar, ao processo da evolução. 
Os que aspiram a fortunas alegam, intimamente, que se as possuíssem mudariam a situação dos que sofrem escassez. No entanto, os grandes magnatas que açambarcam o poder e usufruem da abundância, alucinam-se com os bens, enregelando os sentimentos em relação ao próximo... 
Quantos anelam pela saúde, afirmam, no silêncio do coração, as disposições de aplicá-la a benefício geral. Não obstante, os que a desfrutam, quase sempre malbaratam-na nos excessos e leviandades com que a comprometem, desastrados... 
O bem deve ser feito como e onde cada qual se encontre. 
Em razão disso, as situações e acontecimentos de que se não é responsável, no momento, devem ser enfrentados com serenidade e moderação de atos, por fazerem parte do contexto da vida, a que cada criatura se vincula. 
A vida são o conteúdo superior que dela se deve extrair e a forma levada com que se pode retirar-lhe os benefícios. 
Um dia sucede o outro, conduzindo as experiências de que se reveste, formando um todo de valores, que programam as futuras injunções para o ser. 
Recorre, as situações diversas, aos recursos positivos de que dispões, e aguarda os resultados desse atitude. 
Jesus é sempre o exemplo. 
Poderia haver liberado todos os enfermos que encontrou pela senda; mas não o fez. 
Se quisesse, teria modificado as ocorrências infelizes, que o levaram às supremas humilhações e à cruz; todavia, sequer o intentou. 
Conferiria fortuna à pobreza, à mole esfaimada que O buscava, continuamente; todavia, não se preocupou com essa alternativa. 
Elegeria para o Seu labor somente homens que O compreendessem e Lhe fossem fiéis, sem temores, nem fraquezas; porém optou pelo grupo de que se cercou. 
Modificaria as estruturas sociais e culturais da Sua época; sem embargo, viveu-a em toda a plenitude, demonstrando a importância primacial da experiência interior e não dos valores externos, transitórios. 
Apresentar-se-ia em triunfo social, submetendo o reizete que Lhe decidiu a sorte; apesar disso, facultou-se viver sob as condições do momento em plena aridez de sentimentos e escassez de amor entre as criaturas... 
Jesus, no entanto, conhecia as razões fundamentais de todos os problemas humanos e a metodologia lenta da evolução; identificava que a emulação pela dor é mais significativa e escutada do que a do amor, sempre preterido; sabia do valor das conquistas superiores do Espírito, em detrimentos das falazes aquisições que se deterioram no túmulo e dissociam os tesouros da alma. 
Tem, portanto, coragem e faze como Ele, ante dificuldades e problemas que passarão, armando-te hoje de esperança para o teu amanhã venturoso. 

Autor: Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Franco. Livro: Alerta

A Ideia

Emmanuel

Na fase terminal de nossa reunião de 27 de outubro de 1955, fomos honrados com a palavra do nosso benfeitor Emmanuel, que nos transmitiu a preciosa alocução pelo nosso Chico Xavier, abaixo transcrita. (Arnaldo Rocha)
 
Meus amigos:
A idéia é um elemento vivo de curta ou longa duração que exteriorizamos de nossa alma e que, exprimindo criação nossa, forma acontecimentos e realizações, atitudes e circunstâncias que nos ajudam ou desajudam, conforme a natureza que lhe venhamos a imprimir.
Força atuante – opera em nosso caminho, enquanto lhe asseguramos o movimento.
Raio criador – estabelece atos e fatos, em nosso campo de ação, enquanto lhe garantimos
o impulso.
Expressa flor ou espinho, pão ou pedra, asa ou algema, que arremessamos na mente alheia e que  retornarão, inevitavelmente, até nós, trazendo-nos perfume ou chaga, suplício ou alimento, cadeia ou liberdade.
O crime é uma idéia-flagelação que não encontrou resistência.
A guerra de ofensiva é um conjunto de idéias-perversidade, senhoreando milhares de consciências.
O bem é uma idéia-luz, descerrando à vida caminhos de elevação.
A paz coletiva é uma coleção de idéias-entendimento, promovendo o progresso geral.
É por essa razão que o Evangelho representa uma glorificada equipe de idéias de amor puro e fé transformadora, que Jesus trouxe à esfera dos homens, erguendo-os para o Reino Divino.
Na manjedoura, implanta o Mestre a idéia da humildade.
Na carpintaria nazarena, traça a idéia do trabalho.
Nas bodas de Caná, anuncia a idéia do auxílio desinteressado à felicidade do próximo.
No socorro aos doentes, cria a idéia da solidariedade.
No sermão das bem-aventuranças, plasma a idéia de exaltação dos valores imperecíveis do espírito sobre a exaltação passageira da carne.
No Tabor, revela a idéia da sublimação.
No jardim das Oliveiras, insculpe a idéia da suprema lealdade a Deus.
Na cruz da renunciação e da morte, irradia a idéia do sacrifício pessoal pelo bem dos outros, como bênção de ressurreição para a imortalidade vitoriosa.
Nos mínimos lances do apostolado de Jesus, vemo-lo associando verbo e ação no lançamento das idéias renovadoras com que veio redimir o mundo.
E é por isso que, em nossas tarefas habituais, precisamos selecionar em nossas manifestações as idéias que nos possam garantir saúde e tranqüilidade, melhoria e ascensão.
Não nos esqueçamos de que nossos exemplos, nossas maneiras, nossos gestos e o tipo de palavras que cunhamos para uso de nossa boca, geram idéias, que, à maneira de ondas criadoras, vão e vêm, partindo de nós para os outros e voltando dos outros para nós, com a qualidade de sentimento e pensamento que lhes infundimos, levantando-nos para o triunfo, ou impulsionando-nos para a derrota.
Evitemos o calão, a queixa, a irritação, o apontamento insensato, a gíria deprimente e a frase pejorativa, não apenas em nosso santuário de preces, mas em nosso intercâmbio vulgar, porque toda expressão conduz à inspiração e pagaremos alto preço pela autoria indireta do mal.
Somos hoje responsáveis pela idéia do Senhor no círculo de luta em que nos situamos.
E é indispensável viver à procura do Cristo, para que a idéia do Cristo viva em nós

Ave, 18 de Abril!

Antônio Moris Cury

Foi no dia 18 de abril de 1857, na cidade de Paris, capital da França, que veio a lume "O Livro dos Espíritos", a obra basilar do Espiritismo, ditada pelo mundo invisível e compilada, separada, classificada e codificada pelo ínclito professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, que, propositadamente, adotou o pseudônimo de Allan Kardec, nome que tivera em recuada existência pretérita, a fim de que a obra pudesse ser comprada, se fosse o caso, pelo seu conteúdo e não por quem a assinava, já que era ele muitíssimo conhecido e reconhecido, como professor e como autor de diversos livros, vários dos quais adotados pela Universidade de Paris, notadamente os que versavam sobre educação.
Teve considerável peso também, na adoção do pseudônimo, o fato de que o livro foi ditado pelos Espíritos Superiores, daí o título "O Livro dos Espíritos", não sendo obra dele, professor Rivail, portanto, não obstante tenha nela lançado inúmeros comentários e observações pessoais.
Nota-se, assim, desde logo, por esses detalhes, a conduta reta e ilibada do professor Rivail, o codificador do Espiritismo, que foi discípulo de Johann Heinrich Pestalozzi, famoso educador e fundador do Internato de Yverdon, na Suíça, e, posteriormente, seu substituto predileto, tendo sido considerado pelo célebre astrônomo francês Camille Flammarion "o bom senso encarnado", que, acrescente-se, sempre procurou agir com seriedade e sem rejeições apriorísticas, características do verdadeiro cientista.
Constituía traço característico de sua personalidade, por igual, a preservação da ética, sempre, em suas múltiplas e variadas expressões.
De 1855 a 1869, quando desencarnou em 31 de março, o eminente e ilustrado professor Rivail consagrou sua existência ao Espiritismo.
Em seu túmulo, no Cemitério Père Lachaise, em Paris, uma inscrição sintetiza a concepção evolucionista da Doutrina Espírita: nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei!
Por outro lado, decorridos 157 anos, não se pode deixar de reconhecer que os ensinos contidos em "O Livro dos Espíritos", em sua essência, permanecem absolutamente aplicáveis aos dias atuais, o que, por si, recomenda a leitura, a releitura e, sobretudo, a reflexão, em torno de tão preciosa obra, que contém os princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade.
Verdadeira síntese do conhecimento humano, é um tesouro colocado em nossas mãos, que merece, por isso mesmo, repetimos adredemente, ser lido e refletido de capa a capa, palavra por palavra.
Com efeito, para dizer o mínimo, convém salientar que o Espiritismo nada impõe a seus profitentes, e muito menos a terceiros.
Ao contrário, procura orientar sempre, pela palavra escrita ou falada, que somos dotados de livre-arbítrio, da faculdade de decidir livremente sobre quaisquer assuntos, esclarecendo ao mesmo tempo que, exatamente por isso, somos responsáveis pelas decisões que tomemos, sejam quais forem e nos mais variados campos, e naturalmente responsáveis pelas suas conseqüências.
Por outra parte, enfatiza lições seculares, procurando demonstrar com exemplos e com fatos que "a semeadura é livre, mas a colheita obrigatória" e que "a cada um será concedido de acordo com as suas obras".
Consola, ao salientar que ninguém será condenado irremediavelmente pelos erros, males e equívocos cometidos, porquanto até mesmo em outra reencarnação, que detalha e aprofunda, poderá repará-los, parcial ou totalmente, até quitá-los integralmente, contando com todas as oportunidades de que necessite para tal, uma vez que Deus, sendo o Pai Celestial de todos nós, a nenhum de seus filhos abandona ou desampara.
Consola, igualmente, ao demonstrar cabalmente que as Leis Naturais são perfeitas e por isso mesmo imutáveis, advindo daí a certeza de que a Justiça Divina, que nelas se baseia, é absolutamente imparcial, não havendo seres privilegiados na Criação ou privilégio de qualquer espécie a quem quer que seja, prevalecendo a convicção de que Deus não pune, não castiga e não premia a ninguém, sendo, assim, soberanamente bom e justo, Ele que é a inteligência suprema do Universo, causa primária de todas as coisas!
Por fim, nestas rapidíssimas observações, o Espiritismo ensina que o amor é a lei maior da vida, consubstanciada por Cristo na sentença que constitui o seu ensino máximo "amar ao próximo como a si mesmo",  vale dizer, aconselhando que façamos ao próximo aquilo que gostaríamos que ele nos fizesse, porque quem assim procede estará, por esse mesmo motivo, "amando a Deus sobre todas as coisas".
Aliás, esta sentença de Jesus de Nazaré, o Cristo, modelo e guia da Humanidade, nosso mestre e amigo de todas as horas, também ensina e deixa muito claro que para que amemos ao próximo é absolutamente indispensável que nos amemos, de modo que é necessário, no mínimo, que tenhamos elevada auto-estima.
Agindo com amor e praticando o Bem, ensina-nos a veneranda Doutrina Espírita, ingressaremos na estrada que nos conduzirá à perfeição relativa e à felicidade suprema, destino final dos seres humanos, sendo certo que, assim, sem dúvida, seremos muito mais felizes, desde agora, aqui mesmo na Terra!
"Com efeito, para dizer o mínimo, convém salientar que o Espiritismo nada impõe a seus profitentes, e muito menos a terceiros."
(Jornal Mundo Espírita de Abril de 1998)

Lembrando Allan Kardec

Na noite de 31 de março de 1955, na parte final de nossas tarefas, a instrumentação mediúnica  Chico Xavier foi ocupada psicofonicamente  pelo Espírito Leopoldo Cirne, o grande paladino do Espiritismo no Brasil, que, com fervoroso entusiasmo, exaltou a imorredoura figura do Codificador de nossa Doutrina.
Relembrando Allan Kardec, Cirne convida-nos, a todos nós que Integramos a comunidade espírita, ao estudo metódico das obras kardequianas, que sintetizam o roteiro das verdades eternas.
(Arnaldo Rocha presente na reunião gravou a mensagem e a compilou)
 

Meus amigos, seja conosco a paz do Senhor Jesus.
Celebrando hoje a coletividade espírita o octogésimo sexto aniversário da desencarnação de Allan Kardec, será justo erguer um pensamento de carinho e gratidão, em homenagem ao Codificador de nossa Doutrina, cujo apostolado nos religou ao Cristianismo simples e puro, descortinando amplos rumos ao progresso da Humanidade.
Recordando-lhe a memória, não refletimos apenas no alvião renovador que a sua obra representa na desintegração dos quistos dogmáticos que se haviam formado no mundo pelos absurdos afirmativos da religião e pelos absurdos negativos da ciência, mas, também, na luz de esperança que o seu ministério vem constituindo, há quase um século, para milhões de almas que vagueavam perdidas nas trevas do materialismo, entre o desânimo e a desesperação.
O Espiritismo marcha vitoriosamente na Terra, traçando normas evolutivas e colaborando, por isso, na edificação do mundo novo; entretanto, nas elevadas realizações com que se exorna, particularmente em nosso vasto setor de ação no Brasil, é imperioso não esquecer o apóstolo que, muitas vezes, entre a hostilidade e a incompreensão, batalhou e sacrificou-se para ser fiel ao seu augusto destino.
Saudando-lhe a missão venerável, pedimos vênia para sugerir, por vosso intermédio, a todos os cultivadores de nosso ideal, localizados em nossas múltiplas arregimentações doutrinárias, a criação de núcleos de estudo das lições basilares da Codificação, com o aproveitamento dos companheiros mais entusiastas, sinceros e responsáveis, em nosso movimento libertador, a fim de que as atividades tumultuárias, seja na composição do proselitismo ou no socorro às necessidades populares, não abafem a voz clara e orientadora do princípio.
Na distância de oitenta e seis quilômetros, além do nascedouro, a fonte estará inevitavelmente contaminada pelos elementos estranhos que se lhe agregam ao corpo móvel.
Não nos descuidemos, assim, da corrente cristalina do manancial de nossas diretrizes, instituindo cursos de análise e meditação dos livros kardequianos para todos os aprendizes de boa-vontade.
Estudemos e trabalhemos, amemo-nos e instruamo-nos, para melhorar a nós mesmos e para soerguer a vida que estua, soberana, junto de nós.
A obra gloriosa do Codificador trouxe, como sagrado objetivo, a recuperação do amor e da sabedoria, da fraternidade e da justiça, da ordem e do trabalho, entre os homens, para a redenção do mundo.
Não lhe olvidemos, pois, a salvadora luz e, acendendo-a em nosso próprio espírito, repitamos reconhecidamente:
— Salve Allan Kardec!
Leopoldo Cirne

Onde houver ódio

Onde houver ódio, que eu leve o amor.

Incrível é o poder que tem o antiamor, essa hidra a que chamamos ódio.

Começando por desnutrir e desmantelar o cerne do seu portador, segue, mundo afora, espargindo seus miasmas e se multiplicando no seio de muitas vidas, tornando amarga a vivência.

O indivíduo odiento, relativamente aos que o rodeiam, é alguém que se acha encharcado pelo mesmo ódio que destila.

É alguém que odeia a si mesmo, e que, por isso adoece.

Assim, se desejamos erradicar o ódio do mundo, o primeiro lugar onde devemos tratá-lo, atendê-lo, é dentro de nós mesmos.

Todas as ações odientas que vemos gritando pelo mundo, fazendo vítimas, causando dor e revolta, têm seu início no íntimo enfermo do ser humano.

É o auto-ódio que precisa ser tratado.

O ódio contra si mesmo é a maior tragédia da mente humana.

O perfeccionismo exagerado, que penaliza seu portador, quando não alcança os resultados almejados, é manifestação de auto-ódio.

Os insucessos devem ser estímulo para acertar numa próxima vez e nunca razão de autoflagelo ou decepção profunda consigo mesmo.

Quem se odeia avança para o fim sem cerimônia, seja o fim da saúde, da alegria, do sossego ou o fim da família, dos amigos, da vida, ao cabo de tudo.

Adere aos vícios de difícil erradicação, justificando não poder abandoná-los, escusando-se de fazer mínimos esforços para isso.

O ser que se detesta, imprime em tudo o que faz o selo da negatividade, complicando o que poderia ser simples.

Assim, é preciso parar tudo e cultivar o seu oposto: o autoamor.

Quando Francisco de Assis apresenta a proposta do Onde houver ódio, que eu leve o amor, ele não se refere apenas ao ódio de fora, exterior.

Sabia muito bem, quando se colocou como instrumento da paz que os maiores inimigos do homem estão em sua intimidade.

Desta forma, amar a si mesmo é salvar o mundo.

O amor a si mesmo faz com que desejemos aprender para sermos úteis; faz com que trabalhemos para progredir.

O amor a si mesmo está no perdão concedido, que evita que carreguemos os dejetos prejudiciais da mágoa, do rancor, no coração.

O amor a si mesmo está em preservarmo-nos dos vícios, dos excessos.

Está em cuidar do corpo, sem exageros, e cuidar também da alma, dos pensamentos; do que lemos, assistimos, conversamos.

O amor a si mesmo está longe de ser esta paixão doentia, representada muito bem pela figura mítica de Narciso, que o impediu de pensar em qualquer outra coisa além de sua própria imagem.

É um amor maduro, que faz com que saibamos quem somos, que conheçamos nosso potencial, nosso valor; que saibamos de nossas imperfeições, mas que não nos deixemos assustar ou paralisar por elas; que nos demos novas chances, com alegria, tendo sempre em mente que nosso destino, como Espíritos imortais, será sempre a felicidade.

 
Autor desconhecido
 
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Centro Espírita não é escola de ilusões

O assunto é recorrente, mas não há como ignorá-lo, até porque o exercício da mediunidade não comporta atitudes levianas, nem admite a insensatez nas suas expressões. Exige, sim, um estudo contínuo dos seus mecanismos, sobretudo quanto à necessidade de o médium filtrar as sugestões mentais exercidas pelo espírito comunicante. Em assim procedendo, conquistará, pela meditação e introspecção enobrecidas, amplos recursos de ordem psíquica, jamais se colocando a serviço de puerilidades e fantasias descabidas, fomentando a fascinação e o desequilíbrio em seus aficionados, que direcionam tudo para o campo da mediunidade.
Os desvirtuamentos, os embustes, as infiltrações de idéias e práticas exóticas são uma realidade em muitos "centros espíritas", de vez que o discernimento - o norte dos médiuns - está sendo preterido pelo "vedetismo", fruto da falta de conhecimento, da ignorância e, até, da irresponsabilidade de dirigentes e cúmplices (quase sempre, mal intencionados), que não visam outra coisa, a não ser o poder, a projeção, o destaque pessoal, colocando seus interesses particulares ou os da família consangüínea, o que é pior, (proprietários e herdeiros materiais dos centros) acima da Causa.
É lamentável a falta de bom senso na prática mediúnica, orientada por excessiva vaidade e arrogância dos dirigentes mandões. A adoção de práticas bizarras, ou não afinadas com a simplicidade e pureza dos trabalhos espíritas, comprometem a essência e o objetivo da organização Espírita, e desorientam seus freqüentadores e assistidos. Por isso, insistiremos nesse tema, quantas vezes forem necessárias, até que os ditos "centros espíritas" retomem a sua real finalidade, ao invés de ludibriarem os inocentes assistidos com luzes coloridas (cromoterapias), para higienizar auras humanas e, acreditem (!), para tratamento de: azia, cálculo renal, coceiras, dores de dente, gripes, soluços em crianças, verminose, frieiras, etc.. Têm centros que "engarrafam", literalmente, os obsessores. A que ponto chegamos! Não é sem razão que, lamentavelmente, vez ou outra, ouvimos dizerem: - Eu era espírita, mas...
Nas atmosferas planálticas (Brasília e arredores), o apelo místico é irresistível. Difunde-se, por aqui, uma tal desobsessão por "corrente magnética", com um rosário de extravagantes proposições (prática "inventada" em Brasília, por grupos que seduzem empolgados "filantrópicos de carteirinha", através do apelo assistencialista, inoculando estranhas práticas doutrinárias), como, por exemplo, a magnetização "desobsessiva" para afastar Espíritos, nos mesmos moldes como se espantam moscas varejeiras das feridas expostas. Para que se concretize esse objetivo, recorrem à varinha de condão do "choque anímico" (!?), através do qual os enfermos se "libertam" dos obsessores, consoante prometem seus praticantes. Tudo isso, nada mais é do que uma tremenda 'propaganda enganosa'!
Há as inusitadas piramideterapias; gatoterapia (?) (conheço uma pessoa que possui cinco gatos em casa e crê, fervorosamente, que os bichanos irão "atrair" as energias negativas, livrando-a dessas forças malignas, imaginem); cristalterapias; apometrias, e mais uma infinidade de pias, para todos os gostos. Isso, sem deixar de citar que, no mosaico místico de Brasília, aplica-se, até, passes magnéticos nas paredes dos centros para "descontaminá-las" dos maus fluidos.
Muitos "centros espíritas", do Distrito Federal, têm distribuído uma "milagrosa" pomada (cura tudo) do "vovô fulano-sicrano-beltrano de tal". O que se nota, a bem da verdade, é que ainda não há rigor suficiente das instituições espíritas para com a pulcritude doutrinária, tão-necessária. Há os sistemas divergentes, que teimam em se alojar aqui e ali, na tentativa de, pelo decurso do tempo, serem confundidos e aceitos como Espiritismo a saber: ramatisismo, ubaldismo, armondismo, umbandismo, que ganham coro na ala dos apômetras, cromoterapistas, pomadistas, cepistas (adeptos da CEPA). Etc..
Já que estamos desenterrando alguns ossinhos, continuemos: muitos "centros espíritas" promovem benzeduras de objetos, roupas e fotografias. Dedicam-se à hipnose, para pesquisas sobre vidas passadas, e fazem das reuniões mediúnicas um espetáculo ao público. Adotam o uso do defumador, para "espantar o mau e o mal", com hinos adequados às tais reuniões.
Há os que só trabalham na casa espírita com vestimenta branca (simbolizando "pureza d'alma") e o pior é que, quando indagados sobre a fonte de tais práticas, transferem a responsabilidade de seus hábitos, aos espíritos, afirmando não serem eles os autores das idéias, mas, sim, os "Guias" (filosofia do guiismo). "Até no quesito 'administração do Centro Espírita', encontramos casos circenses, em que os espíritos, através de "médiuns confiáveis do grupo", elaboram chapas eleitorais, para a votação de possíveis candidatos à direção da entidade, atestando a incompetência dos encarnados para conduzirem a obra.
Há, até, os centros (acreditem se puderem ou quiserem!) que, estatutariamente, elegem, em caráter vitalício, os seus presidentes, futuros "mentores" do Centro, após o desencarne. Tudo isso por inspiração de "Jesus".
Ainda não terminou! Há outras práticas, digamos - inacreditáveis: dirigentes que celebram casamentos, crismas, batizados, velórios (tudo no salão de reunião pública), além das sempre "justificadas" rifas e tômbolas nos centros, festival da caridade, tribuna para a propaganda político-partidária, churrasco-espírita (alcunham - "almoço beneficente"), preces cantadas, passes com bocejos, toques, ofegos, choques anímicos (?), o estalar dos dedos, palmas, diagnósticos durante o passe pela "vidência": sobre doenças, através de revelações sensacionalistas, provocando desajustes em pessoas psicologicamente despreparadas. "Visualizadores" do além, que não perdem a oportunidade de descrever "quadros" espirituais, diagnosticar obsessões, fazer previsões e outras esquisitices mais, tudo em nome da "doutrina". Porém, com um detalhe relevante: nunca conseguem visualizar os próprios obsessores! Há centros que promovem cursos e palestras sobre a "kundaline", sobre a força da "mandala", etc.. Ufa!
É por essas e outras razões que muitos médicos da ala conservadora da psiquiatria consideram os médiuns neuróticos, psicóticos, com desvios de personalidade, ou esquizofrênicos. Precisamos acabar com as fantasias e muitas mistificações que andam denegrindo o bom nome da mediunidade e do Espiritismo. Devemos dar à mediunidade mais dignidade, pois, estando, por sua vez, tão barateada, tão vulgarizada, acaba por perder as características de nobreza, de sensatez, de pudor que deve revesti-la. Em razão disso, muito melhor, mais prudente, mais razoável, mais lógico e, obrigatoriamente, necessário será que esses centros intensifiquem as reuniões de estudo, meditação e debates racionais para, por fim, concluírem que o Espiritismo tem uma finalidade muitíssimo além do que pensam, é sublime por natureza. Caso contrário, deletem de seus estatutos a terminologia ESPÍRITA.
Não custa lembrar que a prática espírita sem a devida base moral será, inevitavelmente, uma incursão permanente no mundo do erro e, conseqüentemente, das sombras.


Jorge Hessen

Peripécias e Eficácias do “PASSE” nos Centros Espíritas

Ainda muito jovem fui convidado para “receber” um “passezinho” no centro espírita. Após ouvir a palestra, adentramos na sala de passes, postamo-nos diante do passista e, de modo repentino, o passista deu início a estrondosos e arrepiantes “ARROTOS” na sala. Procuramos consultar o que estava ocorrendo e fomos informados, pasmem! Que o ARROTO era um tratamento de “dispersão” fluídica concentrada no ambiente. Naquela época não professava o Espiritismo, e obviamente fiquei muito indignado.
Os anos advieram, estudei as obras de Allan Kardec, adotei a proposta da Doutrina dos Espíritos como ideal de vida; contudo, tragicamente ainda hoje tenho informações sobre “técnicas” terapêuticas curiosíssimas, realizadas em algumas casas “espíritas”. Atualmente existem instituições que oferecem sessões de passes para todos os gostos e interesses, a exemplo do passe “normal”, aplicado obrigatoriamente após as palestras públicas, normalmente destinado aos famosos papa-passes; do passe “forte” (com direito a arremedos de exorcismos de obsessores na presença do obsedado); do passe “ultra forte” do tipo CURA TUDO (destinado a enfermos graves, obsedados, psicóticos etc., com direito a acorrentamento de obsessores e até “engarrafamento e enrolhamento” dos algozes das trevas); do passe “virtual”, VIRTUAL (!? hummm…) etc. Seria caricata se não fosse patética tal ocorrência.
Há os que “transmitem” passes através de gestos desabridos, malabarismos manuais, choques bizarros com tremeliques corporais, estalos de dedos, cantos peculiares, e ainda os famigerados ARROTOS. Isso mesmo, ARROTOS…! Há passistas que incorporam “entidades” durante o passe, esquecidos de que não se deve aplicar passe mediunizado porque não é prática espírita. Não há necessidade de incorporação mediúnica nas sessões de passe. O passista pode até agir sob a influência da entidade, mas não carece verbalizar, aconselhar ou transmitir mensagens outras concomitantes ao passe. É contraproducente! O assunto é recorrente, mas não há como ignorá-lo, até porque a aplicação do passe magnético não comporta atitudes imprudentes, nem admite desatino nas suas expressões. Exige sim, um estudo contínuo dos seus mecanismos, sobretudo quanto à necessidade de sua aplicação.
Conhecemos médiuns que só aplicam passes com roupas brancas, ou debaixo de pirâmides metalizadas. Há os que terceirizam para o além o passe através das viagens astrais (através das milagrosas apometrias), e mais uma infinidade de métodos, para todos os (des)gostos. Isso, sem deixar de citar que aplicam-se passes magnéticos nas paredes dos centros espíritas para “descontaminá-las” das energias negativas. “Eita, quanta criatividade!”…
Afastando-nos dessas peripécias passistas, analisemos efetivamente o significado do tema na instituição espírita. Vimos que existem inúmeras práticas não compatíveis com a sã Doutrina Espírita que urge sejam arguidas à exaustão, nas bases da compostura cristã, sem nenhuma pecha de intolerância, obviamente. Até porque a verdadeira prática Espírita é a expressão da moral cristã, consubstanciada no Evangelho do Cristo.
O bom emprego do passe não admite qualquer expediente espetaculoso. As encenações preparatórias – “mãos erguidas ao alto e abertas, para suposta captação de fluidos pelo passista, mãos abertas sobre os joelhos, pelo paciente, para melhor assimilação fluídica, braços e pernas descruzados para não impedir a livre passagem dos fluidos, e assim por diante – só servem para ridicularizar o passe, o passista e o paciente. A formação das chamadas “correntes” mediúnicas, com o ajuntamento de médiuns em torno do paciente, “as ‘correntes’ de mãos dadas ou de dedos se tocando sobre a mesa – condenadas por Kardec – nada mais são do que resíduos do mesmerismo do século XIX; inúteis, supersticiosos e ridicularizantes.”(1)
O passe deverá sempre ser ministrado de modo silencioso, com naturalidade. Os espíritas não são proibidos de nada, todavia práticas alucinadas são inaceitáveis. A propósito do legítimo passe,“assim como a transfusão de sangue, representa uma renovação das forças físicas, o passe é uma transfusão de energias psíquicas, com a diferença de que os recursos orgânicos (físicos) são retirados de um reservatório limitado, e os elementos psíquicos o são do reservatório ilimitado das forças espirituais.” – explica o Espírito Emmanuel. (2) Recordemos que Jesus utilizou o passe “impondo as mãos” sobre os enfermos e os perturbados espiritualmente para beneficiá-los. E ensinou essa prática aos seus discípulos e apóstolos, que também a empregaram largamente. Entretanto, é nas hostes espíritas que o passe é melhor compreendido, mais largamente difundido e utilizado.
O Evangelista Mateus numa das suas narrativas assegura que “Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo de sua lepra”. (3) Mas o que é efetivamente o passe? “É uma transfusão de energias, capaz de alterar o campo celular.” (4) Na definição do “Aurélio”, o passe seria o “ato de passar as mãos repetidamente ante os olhos de uma pessoa para magnetizá-la, ou sobre uma parte doente de uma pessoa para curá-la.” (5) No Pentateuco mosaico localizamos o seguinte evento: “Josué, filho de Num estava cheio do espírito de sabedoria, porquanto Moisés havia posto sobre ele suas mãos: assim os filhos de Israel lhe deram ouvidos, e fizeram como o Senhor ordenara a Moisés.” (6)
Sabemos que “é muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio do exercício.” (7) Mas cabe esclarecer que o passe e imposição de mãos não são a mesma coisa. Tem-se a imposição de mãos como apenas um método, mas naturalmente uma pessoa desprovida dos braços pode fornecer um passe pela força do desejo e pelo auxílio dos Espíritos. O fluxo magnético se sustenta e se arremessa à custa da vontade tanto do passista quanto de seres desencarnados que o acodem na conciliação dos fluídos.
O evangelista Marcos descreve sobre um dos chefes da sinagoga, “chamado Jairo que logo após avistar a Jesus, lançou-se-lhe aos pés. E lhe rogava com instância, dizendo: Minha filhinha está nas últimas; rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare e viva.” (8) Na obra Mecanismos da Mediunidade, André Luiz explana que “o passe, como gênero de auxilio, invariavelmente aplicado sem qualquer contraindicação, é sempre valioso no tratamento devido aos enfermos de toda classe” (9)
Em suma, não é demasiado recordar que o exercício das práticas espíritas sem a devida base moral será, fatalmente, uma incursão inequívoca no mundo da inadvertência e, consequentemente, nas teias das ESCURIDÕES TRANSCENDENTAIS.

Jorge Hessen



Referência Bibliográfica:
(1) Pires, José Herculano. Artigo “O Passe” disponível emhttp://www.espirito.org.br/portal/publicacoes/herculano/opd-12.html> acessado em 07/11/2011
(2) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de janeiro: Ed FEB, 2000, perg. 98
(3) Mateus 8: 3.
(4) Xavier, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade, ditado pelo espírito André Luiz, Rio de janeiro: Ed FEB, 2004, Cap. XVII.
(5) Aurélio Buarque de Holanda Ferreira . Novo Dicionário da Língua Portuguesa, SP: editora Nova Fronteira, 2001
(6) Deuteronômio 34: 9 -12.
(7) Kardec Allan. A Gênese, RJ: Ed FEB, 2004, Cap. XIV, item 34.
(8) Marcos 5: 21 – 23).
(9) Xavier, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade, ditado pelo espírito André Luiz, Rio de janeiro: Ed FEB, 2004, Cap. XI